domingo, 10 de outubro de 2010

Pouco

A mesa de vidro segurava as minhas mãos e o frio vinha de tão dentro que deves tê-lo sentido. Fiquei um longo tempo sem escrever. No interior do que eu sou, o Inverno. As palavras seriam poucas, estas que eu amo, as puras, as que me salvam e resgatam, perdia-as.
Não vês? Soube que estava por pouco, quando deixei de conseguir escrever.
Não vês?
Do outro lado da mesa tu tentavas fazer tudo igual. Como se bastasse. Estares. Dizeres coisas. Permaneceres. (Não vês? Eu perdi as palavras. As minhas palavras).
Lá fora o Outono chegava devagar e eu já não me importava. O Verão tinha sido curto e duro e eu também já não me lembrava. Tudo passou muito depressa e muito devagar. Antes de perder as palavras, tinha-me perdido a mim.
Falaste como se bastasses. Disseste como se fosse suficiente.
Eu podia ter calado e agarrado o pouco que trazias contigo. Fazer disso um banquete. Do pouco, um manjar, uma vida, uma explicação. Mas eu tinha perdido as palavras. Se não as tivesse perdido, não me teria dado conta.
A folha em branco era uma naúsea. Eu queria escrever sangue e só poderia escrever sangue, eu queria dizer medo e só poderia dizer medo. Era tudo cru em mim.
A mesa de vidro que nos separava não era uma mesa de vidro. Sendo uma mesa era a minha folha em branco e tu a pensares que chegava seres.
Dei-te a escolher. Pedi-te. Não acreditei. Estaria a mentir se dissesse que acreditei. Mas eu ainda não sabia muito. Não conseguia escrever, logo não sabia o que sentia. Não queria sentir. E tu, olhando-me, como se fosse isso. Estares lá, ser tudo.
Não chega.
Não vês?

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