segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Vem a casa

Vem a casa. Entorna-me os cinzeiros. No sofá cinzento e comprido onde cabes inteiro e eu também, aquele que eu gostava que fosse mais curto para não te ter tão longe. Entorna lá o cinzeiro, como sempre fazes, sem querer. No chão. Em cima do cobertor. No azul felpudo e no vermelho liso como um dia nós fomos. Abre as janelas, vamos pecar e fumar cá dentro porque o miúdo está cheio de riso e mimo na avó. Corta as batatas como quiseres, faz tudo mal (afinal pode ser bem). Suja o chão. Pendura o chuveiro no sítio alto onde eu não chego. Pergunta-me onde estão as coisas. Sobe as escadas a assobiar. Assobia de manhã. Assobia quando quiseres. Deixa-me lavar-te o cabelo de olhos fechados, caracol a caracol. Vou vestir-me mais depressa. Saio de vestido ao contrário se preciso for. Encosta o saco preto com a bandeira à parede. Eterniza-me. No melhor de mim. Ensina-me a estacionar porque ainda que não tenhas a carta tens a lógica. Tens tudo aquilo que eu não tenho. Vem a casa. Pendura o casaco em sítios impossíveis, perde à sueca dois a zero, fala-me do Monte e do teu avô. Confia em mim. Defende-me. Sorri para o senhor do café, diz Bom dia e Bom Trabalho a toda a gente, como fazes sempre. Diz que vais jantar quando afinal vais almoçar. Fazes sempre isso. Come os cereais enquanto lês as notícias e eu fico na cama cheia plena e corajosa apenas com o teu perfil. Beija-me os pés e mexe-me nas orelhas. Olha-me nos olhos e faz com que sejam verdes outra vez e não escuros como a desilusão. Vem a casa. Grava as séries e passa a ferro a roupa do menino. Do meu menino. Tanto que fizeste por mim. Tanto que não fizemos. Outro tanto que não fiz por ti. Diz "Alice". Diz: "Vamos ver". Diz: "Se correr tudo bem". Vem a casa. Molha o pão no azeite. Olha para mim como se fosse a primeira e a última. Vem a casa. Traz mais um maço de tabaco. E surpresas. Vem a casa. Porque, sem ti, perdi a morada.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Por vezes não é o que se faz, mas sobretudo aquilo que não se faz. Não se fazer nada
      é, para mim, a maior desilusão. E a maior lição.

      Obrigada Margarida. Sempre.

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