domingo, 4 de dezembro de 2011

Para o P.

Estás enganado. Para que escrevas, a dor tem de ser amena, a meio termo. Tal e qual a alegria. Tudo o que tocar no extremo será difícil de decompor. Se te esfrangalhas não podes dizer nada: há um lugar onde as palavras não existem, só uivos. Se for demasiado, apenas encontrarás folhas em branco. Irás fugir de tudo isso. O luto pressupõe que a carne rasgada se esteja a fechar. Por isso é que se chama luto. Antes disso e, às vezes, depois disso, não há talento arte ou condição que te valha. Não há nada. O mais assustador é esse vazio que te entra pela boca, te tolhe a língua, te mói os músculos. Abres e fechas a boca e dizes coisas como Bom Dia ou Boa Tarde e elas são o teu último esforço. É preciso que passe o tempo. Esse ditador e usurpador. Só depois. Então.
Como a alegria. Não penses que em chamas te páras para dizer. Só quando a água arrefece. Até lá, enquanto ardes, só podes sentir. E esperar que o fogo se aquiete para que possas contar.
Na dor e na alegria, até que a vida te separe. Mas, isso, tu já sabias.

3 comentários:

  1. Também podia ser para a M.
    Tão agridoce e tão verdadeiro, este texto.
    Obrigada por teres dito tudo.

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  2. Porque tudo o que aqui escrevo é, também, para ti. Tu sabes porquê.

    Um beijinho Margarida.

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