domingo, 15 de julho de 2012

Sábado

Não pertencer a lado algum e assistir ao mesmo em todo o lado. Alguém tocava contrabaixo. Ela, tão bonita, ele, tão distante. Ela, que é ajudante de mecânico, que tem olhos azuis céu e cabeça rapada. Que cumprimenta todos os que passam, sao todos importantes. Faz-me perguntas às quais eu não sei responder. Um mundo inteiro desconhecido entre nós. Alguém a tocar contrabaixo, alguém a beber cerveja, e eu a pertencer a lado algum, a seguir em frente como que por arrasto, espectadora de tudo sem perceber o peso da solidão. Ele, de rastas negras como o rosto, um mundo inteiro desconhecido entre nós. Coisas como partituras, coisas como burrice, coisas como tocar na rua e seguir em frente. Eu a falar do Conservatório. Um mundo inteiro desconhecido entre mim e os outros. E tão iguais. Ela, a apanhar um táxi ainda nem eram duas. Eu, com ela. Ele, com outra. O passado aqui tão perto quando nada podia ser mas tudo ainda iria ser. Alguém estrela um ovo e devem ser sete da manhã. Não quero ouvir barulho. Dentro da minha cabeça os meus sapatos, a rua inteira, pessoas que gostam de mim mesmo quando existem mundos desconhecidos entre nós. Não pertencer a lado algum e assistir ao mesmo. Cheiros diferentes, braços e pernas, sorrisos, dentes tortos, dentes direitos, olhos azuis profundos, olhos escuros como a noite. "És tão bonita". Um buraco profundo e enjoativo no escuro, por onde caio devagar, com um sorriso torto, até ao entardecer.

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