terça-feira, 11 de junho de 2013

Cicatriz

Eu não quero um amor que me salve sempre, basta que me faça respiração boca a boca de quando em vez. Não preciso desse amor. Não acredito nesse amor. Não me ajeites as almofadas nem a vida. Não me faças o jantar, prefiro que me tires da prisão, sendo eu culpada. Eu quero um amor que me ame pela cicatriz.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

E então

Se eu soubesse viver assim se já tivesse visto talvez as respostas fossem mais precisas. Como navalhas a direito. Arremessos de uma bola num espaço quadrado com todas as variantes calculadas. Instinto. Continuo a gostar de chapéus. E de óculos de sol. Fora isto de que gosto, não sei o resto. E o que resta é tudo. Não digo não escrevo não sonho amor porque prefiro a casa aberta e morna que fechada e quente. Ou talvez não prefira e seja só melhor assim. Sinto-me como se à espera da resposta de uma carta que não enviei. Gostava de voltar a acreditar em Deus. De ainda ter tempo para acreditar numa data de coisas. De ainda existir espaço para erros que cometi. Gostei tanto de os cometer. Os meus erros sempre foram como gargalhadas. Será que me tornei cobarde? Não me acabei só eu. Tudo o que à minha volta era certo e familiar acabou, um dia acordei e era como se não tivesse cicatrizes. A vida que eu conhecera não existia mais. Foi num instante. Parece-me que foi num instante. Eu que fui a todo o lado nunca me soube tão da raiz. Faz-me falta a raiz. Descubro, a meio de uma vida, que passei o tempo todo à procura da raiz. E, agora, que ela se desfaz a cada dia, mais calada fico. A mana que já não mora ali. Amigos que tinha, gente como família, que não sei. Não sei deles. Não sei o que lhes aconteceu. Pior: não sei o que ME aconteceu. A outra mana que está aqui e ali, o corpo aqui, o coração tão lá. E a outra ainda que não pode ser feliz no único momento em que só deveria ser feliz. O pai que me morreu. A mãe que enfim. A avó que já não me ouve e eu que tinha tanto para lhe perguntar. Olha-me e eu vejo nela tudo o que sei e dói-me. Dói-me tanto tanto isto ter ficado tudo assim. Se eu soubesse, se já tivesse visto, talvez pudesse temer ou não temer e não não é a vida é como alguma coisa aqui por dentro, não sei se bicho, não sei se dor, não sei se nada, mas que muda. Muda tudo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Todo o amor

O teu amor de tâo perfeito é uma concha. Se não fosses tu, meu príncipe, o mundo tinha acabado. A tempestade veio e agarrei-me a ti e por vezes sinto culpa por me agarrar assim a ti. Quero que voes, por isso é que te deixo ir. Ainda que só os teus olhos me lembrem a claridade, ainda que no meio do caos, tu me lembres a certeza das coisas boas. Se não fosses tu, meu príncipe, não teria sabido que sou capaz de amar. De doar. De ser melhor. Se não fosses tu nada disto valeria a pena. As manhãs tortas, as saudades, o mal do mundo, os fracassos, os enganos, a noite má. Não existem buracos agora. Porque conversamos e crescemos juntos. Nem sei se mereço tudo aquilo que já me ensinaste.

sábado, 13 de abril de 2013

...

Tenho mais duas rugas na testa. Volto do café e a minha sombra mostra-me os cabelos compridos. Tinha-me esquecido que tenho cabelos compridos. Os vizinhos falam sobre o jogo de futebol. Ela responde-lhe coisas como "vais ver que ainda marcam". Ouço os talheres a rasparem os pratos. Sei o quanto poderia ser tão feliz assim. E tão infeliz assim. E já não me lembro de quando tudo começou a ser demasiado complicado para mim.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Antes

Nunca vamos ser felizes como inventámos, pois não? Como quando ainda éramos apenas um sonho na cabeça de cada um, uma ilusão. Nunca mais vamos ser felizes assim, pois não? Mas tínhamos de ver se era verdade, não tínhamos? Não sei porque razão continuámos a inventar, mesmo depois de sabermos que só fomos felizes no momento antes do salto. Já não sei se saltámos ou se fui que te empurrei.

sexta-feira, 29 de março de 2013

É assim

Sou a pior. Tu sabes. Não te faço feliz. Não me fazes feliz. És melhor, porque precisas de menos e eu preciso sempre de mais. Podia dizer que não tenho culpa. Mas tenho. Não me acostumo. Aterrorizo-me com o costume nessa medida igual em que o desejo. Se ainda não me encontrei, como queres que te encontre? Dorme comigo esta noite e a seguinte trinta dias seguidos que haverei de descobrir que não era isso. Sou a pior. Tu sabes. Por momentos, durante algum tempo, julguei que me fosses ensinar isso de esperar e do "logo se vê" e de adormecer sem um vulcão no peito. Não sei. Nunca soube. Sou a pior, mas, acredita, não estou zangada contigo.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Fogo

Quem tem um fogo no peito, tem sempre um fogo no peito. É a criança que se atira da árvore e que cai em cima das urtigas e, ainda assim, volta a subir à árvore, na esperança de que dessa vez arda menos. É o velho que usa laço para ir à mercearia e que dança mais devagar, mas dança. O fogo de que somos feitos não se extingue. Nascemos com ele, morreremos com ele. Temos pena, é certo. Todos os desamores. Tantos poemas. E mesmo quando se acabam as juras, sentamo-nos ao lado e estarmos ali é um compromisso de honra. Quem arde, arde sempre. Na fúria e no amor. Faz parte. Quando decidiram que iríamos ter cabelo louro e olhos verdes, quando as células se multiplicaram e os genes ditaram os dedos dos pés e o sorriso de esguelha, ditaram-nos também esse fogo que uns chamam Inferno e outros compreendem. Os que ardem, ardem sempre. Resta esperar. Ou não. Viver em fogo afasta-nos das sombras.