terça-feira, 9 de julho de 2013
Tanto tempo
Porra, sabes o que é que me lixa a sério e como é que sei que tudo mudou para além de estar a escrever porra? É que bastou eu desistir para desistires comigo de todas as coisas que podíamos fazer juntos foste escolher esta eu sei dá menos trabalho e então encontras a paz que tanto gostas não tens toda a morte para descansar? Não, porra, o que me irrita mesmo é o tempo que perdemos sem dançar sem rir a remoer não em verdade o que me lixa mais ainda é que podíamos ser tudo não tivesses tu metido na cabeça que eu sou o gigante dos teus medos. Porra, era tão fácil, que chega a ser cómico, eu aqui calada a saber das mil e uma aventuras traições e deslealdades que me inventas quando eu estou apenas a resgatar as penas. Tanto tempo, sabes, tanto tempo.
domingo, 7 de julho de 2013
De dentro para fora e lá fora
Voltei a dançar e isto assim não era nada se dançar não quisesse dizer tudo. Danço e ah é como se risse foram tantos Verões a dançar como se morresse. Danço como se andasse de baloiço fecho os olhos e voo e, quando me deito, a dança acompanha-me, como se só agora a morte que vi o medo que senti e tudo o que um dia foi perdição acabasse finalmente. Fim.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Verão
Quando Junho terminava tínhamos já tudo: sal no corpo, olhos de limo, por vezes até um amor perdido. Depois, Julho corria e era como um Junho gordo a rebentar, uma sesta prolongada. Castanhos, mudávamos de praia e em Agosto prometíamos voltar. Setembro não existia. Em cada dia quente, há um Verão inteiro.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Acho que foi quando disseste que eu não dançava assim tão bem. Claro que não danço. Não vês? Nunca foi a dança. Dançava para ti. Para te fazer sorrir. Para te seduzir. Para ser feliz. Acho que foi quando disseste que eu não dançava assim tão bem. Como se isso realmente importasse. Como, se assim, não tivesses explodido o que restava. Tudo. Não reparaste. Não viste bem. Foi como se empurrasses a minha torre de legos. E o melhor de ti se desfizesse como a poeira em que te encontrei.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Charles Bukowski (escrever dói)
"Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar e depois de se passar a noite inteira a dormir cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito mais difícil de largar. Sempre fui solitário. Desculpe-me, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma ou outra fodidela, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. Eu sei que não é uma atitude simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram as pessoas que me tornaram infeliz".
Charles Bukowski
Cicatriz
Eu não quero um amor que me salve sempre, basta que me faça respiração boca a boca de quando em vez. Não preciso desse amor. Não acredito nesse amor. Não me ajeites as almofadas nem a vida. Não me faças o jantar, prefiro que me tires da prisão, sendo eu culpada. Eu quero um amor que me ame pela cicatriz.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
E então
Se eu soubesse viver assim se já tivesse visto talvez as respostas fossem mais precisas. Como navalhas a direito. Arremessos de uma bola num espaço quadrado com todas as variantes calculadas. Instinto. Continuo a gostar de chapéus. E de óculos de sol. Fora isto de que gosto, não sei o resto. E o que resta é tudo. Não digo não escrevo não sonho amor porque prefiro a casa aberta e morna que fechada e quente. Ou talvez não prefira e seja só melhor assim. Sinto-me como se à espera da resposta de uma carta que não enviei. Gostava de voltar a acreditar em Deus. De ainda ter tempo para acreditar numa data de coisas. De ainda existir espaço para erros que cometi. Gostei tanto de os cometer. Os meus erros sempre foram como gargalhadas. Será que me tornei cobarde? Não me acabei só eu. Tudo o que à minha volta era certo e familiar acabou, um dia acordei e era como se não tivesse cicatrizes. A vida que eu conhecera não existia mais. Foi num instante. Parece-me que foi num instante. Eu que fui a todo o lado nunca me soube tão da raiz. Faz-me falta a raiz. Descubro, a meio de uma vida, que passei o tempo todo à procura da raiz. E, agora, que ela se desfaz a cada dia, mais calada fico. A mana que já não mora ali. Amigos que tinha, gente como família, que não sei. Não sei deles. Não sei o que lhes aconteceu. Pior: não sei o que ME aconteceu. A outra mana que está aqui e ali, o corpo aqui, o coração tão lá. E a outra ainda que não pode ser feliz no único momento em que só deveria ser feliz. O pai que me morreu. A mãe que enfim. A avó que já não me ouve e eu que tinha tanto para lhe perguntar. Olha-me e eu vejo nela tudo o que sei e dói-me. Dói-me tanto tanto isto ter ficado tudo assim. Se eu soubesse, se já tivesse visto, talvez pudesse temer ou não temer e não não é a vida é como alguma coisa aqui por dentro, não sei se bicho, não sei se dor, não sei se nada, mas que muda. Muda tudo.
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