domingo, 24 de fevereiro de 2013

Esquecer

Sabes que o meu amor por ti vem antes da raiz é disso que preciso que te lembres e que guardes. Não digas nada eu sou apenas uma mãe aflita uma mulher com dúvidas e perdi as chaves de casa. No teu canto ouves as vozes e são as do teu avô e o doce que a tua mãe faz tem chocolate e natas. Eu, amor, desconheço o imutável. Não me perguntes nada, eu sou só alguém com tudo a perder. Não perguntes nada porque não é o caminho que nos faz estamos na estrada mas não somos a estrada e eu morro de pé como se diz como a árvore mesmo que os olhos secos mesmo que tudo esteja errado ainda que saiba que não deveria ser assim. Amor, canta-me melodias doces ao ouvido ou fala-me dos teus vizinhos porque eu sou como quem vem da guerra e não quer falar disso. O meu amor vem antes ficará depois tu sabes e ainda que nunca entendas os meus pesadelos que seja impossível explicar-te as nódoas negras depois de tudo isto eu quero lembrar-te como o anjo que nunca foste e de nós como o sonho que vivi um dia. E ese dia único me basta e bastará para que possa levar esta aflição e esta tristeza calada que nem eu sei. E esquecer.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Aqui

Não me fui embora. De um momento para o outro, tudo me pareceu irreal. As cadeiras. A cerveja na rua. O filme novo. Os primeiros passos da criança. Eu, que vos desejo tudo de maior, deixei de apetecer. E de aparecer. A vida são metades, gomos. Comemos com satisfação e um dia não apetece. A minha verdade pode ser a minha ausência. Mas nunca o meu desamor. Eu sei que isto pode ser difícil de entender. Não me fui embora. Os que sabem quem eu sou, continuam.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Boys don´t cry

As mulheres choram. Claro. É a notícia o filme o coração a saudade o amor e o desamor a palavra feia o espelho o medo o mundo todo. Elas choram quando eles caem e vão beber uns copos elas choram por eles pela dor que, nelas, é a consciência do que virá depois. A pele. Os copos nos amigos. As mulheres choram porque eles não sabem chorar. São viúvas. As mulheres da Nazaré. São mães. Todas as mães choram. São Deusas inundadas em lágrimas que dizem ser mimo e hormonas e fraqueza e tolice e estupidez e nada de nada. Felizmente aprendi a chorar. E com toda a humildade ajoelhei-me aos pés das que choram e exercitei o mea culpa. É preciso ser tão grande para chorar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Imperfeitos como eu

Os meus amigos são os pecadores de alma tão limpa quanto a verdade. Têm muitas crenças: em deuses com nome, em substâncias, neles mesmos ou em coisa nenhuma. São todos maus e por isso são todos bons. Os meus amigos ligam às tantas da noite e fizeram asneira e então rimos e eu digo deixa estar eu sou pior e eles respondem não eu é que sou e então rimos e ficamos aliviados por sermos todos iguais. Os meus amigos acreditam em coisas parvas como eu, riem-se de piadas negras, guardam borboletas em frascos, escrevem tão bem, cantam tão bem, pintam tão bem, amam tão bem. Quando fazem tudo mal, quando faço tudo mal, encontramo-nos e dizemos coisas como para a próxima vai ser melhor e naquela mesa sem julgamentos somos os melhores amigos de sempre e vamos ser para sempre assim: amigos inquebráveis de juramentos sem livro ou mão no peito. Os meus amigos nunca são ex-amigos. Isso não existe. Não há traição. Os que entretanto se perderam estão apenas a encontrar um outro caminho. Um dia destes ligam e dizem não valho nada e eu digo não valho nada e rimos de novo e ficamos descansados por sermos todos iguais. Os meus amigos não usam máscaras perguntam pelo miúdo com sinceridade quando não perguntam é porque não lhes apetece. E eu gosto disto, destes meus amigos tão puros como a fé tão turvos como um rio. Tão meus. Imperfeitos, nessa medida perfeita de amar alguém.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Sortuda

A sorte que eu tenho é achar que tenho sorte. Não há segredo. Nem tenho sorte nenhuma e, no entanto, tenho toda a sorte do mundo. A sorte dos teus olhos serem verdes verdes e saltarem para dentro do meu peito toda essa meiguice que não há igual. Não há igual meu pequeno. Há quem fale em estrela "a estrela que tu tens". Qual estrela? A sorte que eu tenho é acreditar em estrelas em coisas que "pum" vão e acontecem, em clarabóias quando, na verdade, é só uma telha de vidro. A sorte que eu tenho é um palhaço pobre mas é inteiro, uma bailarina de uma perna, um sorriso sem um dente. Mas é uma sorte danada. Então toda esta sorte invisível e inexistente de tanto não ser, é. "Joga, que tens sorte" e depois não percebem porque não jogo. A sorte que eu tenho está cá dentro, é o que me faz abrir os olhos pela manhã e acreditar em poesia, não ter medo, vestir roupa esquisita. É uma ingenuidade e é por isso que eu tenho toda a sorte do mundo e uma estrela.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Norte no Sul

No Norte, quando se ama, acaba tudo. Começa tudo. Nunca mais esqueceremos. No Sul nada acaba de repente, há mais maneiras, uma forma diferente de nos encontrarmos e de nos deixarmos. No Norte somos todas rapazes. Há um brio qualquer, uma razão secreta para não haver cavalheirismos. Somos iguais e então é uma guerra. No Sul que parece tão fácil é sempre tudo mais difícil. Se nos arrebatam, estamos doidos, se somos nós a arrebatar, estamos doidos. É assim e eu sei que não é por mal. No Norte matamo-nos, matamos, fazemos um pé-de-vento, há sempre confusão nas estações de comboio. E bêbedos, muitos bêbedos. Metade delas, das bebedeiras, por causa deles. Dos amores partidos. No Norte, uma senhora tem sempre um rasgo de aventura escondido no peito, o Norte é duro, torna-nos duros e desvairados quando amamos. No Norte ama-se tudo, a família tonta, os ricos e os pobres são histórias que se contam casa sim e casa não. No Norte, onde tudo importa, tudo se aceita. Comem-se tripas. Mas no Sul não. No Sul apaixonamo-nos mais vezes e quando damos conta fomos levados. É do calor. E não era assim tão importante. Quando, no Sul, um amor nos arranca do chão, esse é o único. E lembramo-nos do Norte: violento e terno, como todos os grandes amores.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Asas

Neste palácio em ruínas descobrimos a fraternidade que parece uma palavra dos palanques e é tão grande. Fraternidade. Agora que este ano maldito termina. Agora que os mortos, às tantas, já podem caminhar, reconhecemos todas as nossas fraquezas e como se em oração não fazemos delas forças. Mas fraquezas. É preciso olhar de frente para o que nos encolhe e olhar fundo para aquilo que sempre fomos. Pleno voo. Em 2013, voaremos.