segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Imperfeitos como eu

Os meus amigos são os pecadores de alma tão limpa quanto a verdade. Têm muitas crenças: em deuses com nome, em substâncias, neles mesmos ou em coisa nenhuma. São todos maus e por isso são todos bons. Os meus amigos ligam às tantas da noite e fizeram asneira e então rimos e eu digo deixa estar eu sou pior e eles respondem não eu é que sou e então rimos e ficamos aliviados por sermos todos iguais. Os meus amigos acreditam em coisas parvas como eu, riem-se de piadas negras, guardam borboletas em frascos, escrevem tão bem, cantam tão bem, pintam tão bem, amam tão bem. Quando fazem tudo mal, quando faço tudo mal, encontramo-nos e dizemos coisas como para a próxima vai ser melhor e naquela mesa sem julgamentos somos os melhores amigos de sempre e vamos ser para sempre assim: amigos inquebráveis de juramentos sem livro ou mão no peito. Os meus amigos nunca são ex-amigos. Isso não existe. Não há traição. Os que entretanto se perderam estão apenas a encontrar um outro caminho. Um dia destes ligam e dizem não valho nada e eu digo não valho nada e rimos de novo e ficamos descansados por sermos todos iguais. Os meus amigos não usam máscaras perguntam pelo miúdo com sinceridade quando não perguntam é porque não lhes apetece. E eu gosto disto, destes meus amigos tão puros como a fé tão turvos como um rio. Tão meus. Imperfeitos, nessa medida perfeita de amar alguém.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Sortuda

A sorte que eu tenho é achar que tenho sorte. Não há segredo. Nem tenho sorte nenhuma e, no entanto, tenho toda a sorte do mundo. A sorte dos teus olhos serem verdes verdes e saltarem para dentro do meu peito toda essa meiguice que não há igual. Não há igual meu pequeno. Há quem fale em estrela "a estrela que tu tens". Qual estrela? A sorte que eu tenho é acreditar em estrelas em coisas que "pum" vão e acontecem, em clarabóias quando, na verdade, é só uma telha de vidro. A sorte que eu tenho é um palhaço pobre mas é inteiro, uma bailarina de uma perna, um sorriso sem um dente. Mas é uma sorte danada. Então toda esta sorte invisível e inexistente de tanto não ser, é. "Joga, que tens sorte" e depois não percebem porque não jogo. A sorte que eu tenho está cá dentro, é o que me faz abrir os olhos pela manhã e acreditar em poesia, não ter medo, vestir roupa esquisita. É uma ingenuidade e é por isso que eu tenho toda a sorte do mundo e uma estrela.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Norte no Sul

No Norte, quando se ama, acaba tudo. Começa tudo. Nunca mais esqueceremos. No Sul nada acaba de repente, há mais maneiras, uma forma diferente de nos encontrarmos e de nos deixarmos. No Norte somos todas rapazes. Há um brio qualquer, uma razão secreta para não haver cavalheirismos. Somos iguais e então é uma guerra. No Sul que parece tão fácil é sempre tudo mais difícil. Se nos arrebatam, estamos doidos, se somos nós a arrebatar, estamos doidos. É assim e eu sei que não é por mal. No Norte matamo-nos, matamos, fazemos um pé-de-vento, há sempre confusão nas estações de comboio. E bêbedos, muitos bêbedos. Metade delas, das bebedeiras, por causa deles. Dos amores partidos. No Norte, uma senhora tem sempre um rasgo de aventura escondido no peito, o Norte é duro, torna-nos duros e desvairados quando amamos. No Norte ama-se tudo, a família tonta, os ricos e os pobres são histórias que se contam casa sim e casa não. No Norte, onde tudo importa, tudo se aceita. Comem-se tripas. Mas no Sul não. No Sul apaixonamo-nos mais vezes e quando damos conta fomos levados. É do calor. E não era assim tão importante. Quando, no Sul, um amor nos arranca do chão, esse é o único. E lembramo-nos do Norte: violento e terno, como todos os grandes amores.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Asas

Neste palácio em ruínas descobrimos a fraternidade que parece uma palavra dos palanques e é tão grande. Fraternidade. Agora que este ano maldito termina. Agora que os mortos, às tantas, já podem caminhar, reconhecemos todas as nossas fraquezas e como se em oração não fazemos delas forças. Mas fraquezas. É preciso olhar de frente para o que nos encolhe e olhar fundo para aquilo que sempre fomos. Pleno voo. Em 2013, voaremos.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Filho meu,

És o rebelde de coração fantástico, um admirável ser que ora corre a mil como o McQueen ora se senta no meu colo a falar de coisas como envelhecer como amor como perda como saudades. Tens toda a poesia do mundo dentro do peito e toda a sede de quebrar os limites. O que pode ser um problema. Mas acredito-te. Tens-me mostrado, nestes seis anos, que tudo o que, em ti, pode ser difícil, não é impossível. Falas-me de vitórias que são conseguires ficar sentado na cadeira da sala de aula e eu que te queria poupar a sistemas impostos mas que sei o quanto é preciso, às vezes, fazê-lo, dou-te um abraço, que é um orgulho e um espanto em mim. Desde aquele dia, era Domingo, em que a coisa primeira que fiz foi cheirar-te, como um animal cheira a cria, eu soube que te haveria de amar assim, como a parte melhor de mim, a que tu és e isto não são palavras, filho meu, isto é a verdade. Todos os filhos são mágicos, mas tu és a magia maior. Obrigada. Parabéns meu amor.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O mês da chuva

Quando acordámos, nesse Novembro, todos faziam o de todos os dias: escovavam os dentes, vestiam a roupa, comiam à mesa e as notícias eram a casa. Menos nós. Eu. No mês da chuva tudo se passava como sempre se passou e ainda que de muitos lados viessem as vozes que ouço, era demasiado. Sempre foi demasiado. As rotinas. Lavar os dentes. A roupa. As notícias. Debaixo da primeira linha da pele estamos. Estou. Por isso é que é tão difícil de explicar. Os sinos que ouvíamos faziam-nos lembrar de outro tempo e o dia um dois três e eu menos isso tudo. Tu dormias e, ao acordar, era um dia mais. Como perceberias que eu não tinha dormido? Que, ao acordar, colavam-se em mim os sonhos, que os outros lavam os dentes e há notícias em casa e que, tantas vezes, a rua não é nada. Que eu passo por baixo ou por cima, pelo meio, e que debaixo da pele sou outra coisa? Achavas engraçado nesse Novembro em que nos quase apaixonámos. Esqueceste que toda a diferença é, também, um fardo. Um acto de coragem mas principalmente nada disto. É o que é. Sem remédio. Uma inevitabilidade. Nada, em mim, é calculado. Sou assim porque sou assim, se fizer um esforço não sou eu, debaixo da pele em cima da pele, no meio da rua, por baixo, é preciso aceitar. Quando chove nesse Novembro que é sempre o mesmo mês na chuva e na vida tu viste qualquer coisa que não era. E ainda que eu te tivesse tentado explicar, nada poderia ser tão difícil de aceitar. A absoluta diferença, que não procura aceitação. Não há por onde fugir. Nesse Novembro ontem e de sempre, tu não prestaste a devida atenção.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Nevoeiro

Este nevoeiro tonto que poderia ser uma manhã de luz e é sempre a mesma sombra. Trazemos sóis no peito e em algum lugar os campos verdes fazem-nos convites lembram-nos de quando o sonho era possível hoje que o sonho não é possível o pior de tudo não é o que perdemos ontem mas o que perdemos, irremediavelmente, no amanhã.