segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Filho meu,

És o rebelde de coração fantástico, um admirável ser que ora corre a mil como o McQueen ora se senta no meu colo a falar de coisas como envelhecer como amor como perda como saudades. Tens toda a poesia do mundo dentro do peito e toda a sede de quebrar os limites. O que pode ser um problema. Mas acredito-te. Tens-me mostrado, nestes seis anos, que tudo o que, em ti, pode ser difícil, não é impossível. Falas-me de vitórias que são conseguires ficar sentado na cadeira da sala de aula e eu que te queria poupar a sistemas impostos mas que sei o quanto é preciso, às vezes, fazê-lo, dou-te um abraço, que é um orgulho e um espanto em mim. Desde aquele dia, era Domingo, em que a coisa primeira que fiz foi cheirar-te, como um animal cheira a cria, eu soube que te haveria de amar assim, como a parte melhor de mim, a que tu és e isto não são palavras, filho meu, isto é a verdade. Todos os filhos são mágicos, mas tu és a magia maior. Obrigada. Parabéns meu amor.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O mês da chuva

Quando acordámos, nesse Novembro, todos faziam o de todos os dias: escovavam os dentes, vestiam a roupa, comiam à mesa e as notícias eram a casa. Menos nós. Eu. No mês da chuva tudo se passava como sempre se passou e ainda que de muitos lados viessem as vozes que ouço, era demasiado. Sempre foi demasiado. As rotinas. Lavar os dentes. A roupa. As notícias. Debaixo da primeira linha da pele estamos. Estou. Por isso é que é tão difícil de explicar. Os sinos que ouvíamos faziam-nos lembrar de outro tempo e o dia um dois três e eu menos isso tudo. Tu dormias e, ao acordar, era um dia mais. Como perceberias que eu não tinha dormido? Que, ao acordar, colavam-se em mim os sonhos, que os outros lavam os dentes e há notícias em casa e que, tantas vezes, a rua não é nada. Que eu passo por baixo ou por cima, pelo meio, e que debaixo da pele sou outra coisa? Achavas engraçado nesse Novembro em que nos quase apaixonámos. Esqueceste que toda a diferença é, também, um fardo. Um acto de coragem mas principalmente nada disto. É o que é. Sem remédio. Uma inevitabilidade. Nada, em mim, é calculado. Sou assim porque sou assim, se fizer um esforço não sou eu, debaixo da pele em cima da pele, no meio da rua, por baixo, é preciso aceitar. Quando chove nesse Novembro que é sempre o mesmo mês na chuva e na vida tu viste qualquer coisa que não era. E ainda que eu te tivesse tentado explicar, nada poderia ser tão difícil de aceitar. A absoluta diferença, que não procura aceitação. Não há por onde fugir. Nesse Novembro ontem e de sempre, tu não prestaste a devida atenção.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Nevoeiro

Este nevoeiro tonto que poderia ser uma manhã de luz e é sempre a mesma sombra. Trazemos sóis no peito e em algum lugar os campos verdes fazem-nos convites lembram-nos de quando o sonho era possível hoje que o sonho não é possível o pior de tudo não é o que perdemos ontem mas o que perdemos, irremediavelmente, no amanhã.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Depois

Não quero ser pequenina e mesquinha e poucochinha. Não quero ser para baixo olhos de carneiro queixume fácil sorriso torto testa crispada lágrima pronta não quero ser "a mim nunca vai acontecer" bem longe de "eu nunca tenho sorte". Não quero ser idiota fraca rezingona doente de nada encurvada de tudo nem quero ser preguiçosa queixinhas molenga chega para aqui o aquecedor pele baça olhar mudo dentes cerrados. Não não e não. Eu quero ser alta do tamanho dos meus sonhos da minha vida grande como gargalhada sábia como uma avó deslumbrada como uma criança quero rir de manhã à noite e rir quando não é para rir quero ajudar quero estar lá. Fazer alguma coisa. Fazer alguma coisa. Poder mudar de fora para dentro de dentro para fora. Desarrumar tudo ter uma escada que chegue ao tecto onde estão todos os meus livros. As palavras são o meu céu e é lá que durmo este é o meu fio puxo-o devagar, o caminho, tantos que o disseram, é feito ao andar.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dia mau

Há alturas em que os pedregulhos são tão grandes que não sabemos se vai ser possível, dentro de nós do que somos feitos esta fibra e esta cal esta cara de ferro que temos os que já perderam tudo os que começaram logo a perder já nem sequer perguntam, empurram os pedregulhos arrastam mas as pernas estão fracas. Na esquina, hoje encostei-me a uma esquina. Se alguém passasse ali podia cair no buraco que eu era na desolação do meu peito tenho saudades de não ter medo de ter os dias a correr na ponta dos dedos tenho saudades dos assentos dos comboios, de chocolate quente,de paz. Não sei o que é ter paz e isso não quer dizer que viva em guerra. Quero a paz de não me encostar a uma esquina e a rua ser menos triste do que eu.

Siêncio

Ser amado é viver dentro de uma bolha, nada nos pode atingir, faz ricochete. Mesmo que em farrapos dores tantas e outras misérias caminhamos na rua e nada eu digo nada nos pode derrubar. Os pais que amam, as pessoas que escolheram amar-nos. Esta sorte. Esta desgraça quando a bolha se rebenta e começamos a ter medo. A falta de amor condenou isto tudo. Andamos uma vida inteira à procura de coisas que existem dentro de nós.

domingo, 4 de novembro de 2012

Insanidade

Ligam-me e contam-me coisas tristes histórias ainda mais tristes maldades em todo o lado. Os medíocres transformaram-se em desonestos os inúteis em fantasmas. É assim que estamos. Os que podem fogem e já nem o amor nos salva. Já nem o amor nos salva. O amor está encalhado na dificuldade que é tudo quando só o amor nos podia salvar. Olho para o lado e acho que ninguém entende. Ninguém percebe que o que me revolta na miséria, para lá da fome, é a total ausência de princípios. Antes de chegramos à fome já nos transformámos em coisas nojentas, humanos que não se reconhecem. Neste vale tudo perdeu-se tudo tudo: dignidade, amizade, respeito, humanidade. A mão que lavava a outra mão está podre, só serve para empurrar. Quero e nada posso. Chegámos ao tempo em que desatámos a falar línguas diferentes. Temo nunca mais conseguir adaptar-me a esta insanidade.