segunda-feira, 28 de julho de 2014

Na rua

O pior é que conseguimos tudo, morremos da cura e da salvação. Não morremos de amor nem de ternura ou de êxtase ou de tristeza. Morremos ao ficarmos bons. E isto custa. Dá comichão e queremos arrancar a crosta e sabemos que tudo é ridículo que tudo será sempre assim tão simples. É a simplicidade das coisas que nos custam que nos baralha.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Germana

O meu tudo e o meu todo o meu Norte cego e a minha noite doida as minhas ruas em luz e o meu corpo perfeito o meu tudo e o meu todo. A minha recompensa a moldura na sala o amor ao peito. O meu tudo e o meu todo. As músicas os filmes os olhos em fundo. Não era nada disto. O meu tudo e o meu todo.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Espera por mim

Espero pelo Verão como quem espera por um amor que vai descer do comboio. E eu que adoro o Verão tudo isto nunca tenho um Verão feliz. Não sei, já não me apetece mergulhar na memória, tenho medo, mas se todas as estações do ano me doeram por esta ou aquela razão, tendo a nítida sensação que foi nessa nesta altura que fui mais infeliz. Não é por gostar da praia, nem das noites imensas nem do sol a queimar-me a pele eu igual por dentro é por fora. O Verão deveria ser todas as possibilidades, mas é sempre o meu vestido apenas a esconder o mais perdido dos corações.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Entre o medo

Escolho o orgulho em vez do medo. Filho, para que saibas, tenho tido medo. Dentro de mim, naquele fundo que somos nós ainda tu dentro da minha barriga e eu a conhecer-te inteiro, aí dentro, eu sei que tu deves estar certo. Que não é por mal. Tenho medo por ti. Não acabas os testes, não entendes a importância de testar coisas que alguém inventou para testar gente grande e são os miúdos como tu que vivem no fio da navalha. Tu não te cortas. Passas por cima ou por baixo e perdoas-me ser a mãe que eles querem que eu seja. Perdoas-me tudo, apesar de injusto. E percebes que é por amor. Escolho o orgulho em vez do medo.

terça-feira, 15 de abril de 2014

montanha russa

Se eu pudesse sentir menos, saber menos, ter visto menos. Se tudo o que vejo durasse apenas o momento inteiro e não fosse preciso a minha alma desatar-se dos dias uma e outra vez.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

nunca menos

Porque a vida dizem que é isto a mãe está a trabalhar é bom assim sempre descansa e o miúdo está na avó mimo brincadeira amor também. a saudade não obedece a coisas racionais férias calendário a saudade é igual sempre. um medo permanente de perder um vazio qualquer menos profundo quando dizemos, a um mesmo tempo, pelo telefone, amo-te.

sábado, 22 de março de 2014

Manhã cedo

Hoje acordei com o teu rosto Toda a noite esteve comigo E acordei cedo O teu rosto era triste E o meu coração doía Queria explicar-te muitas coisas E deixar-te chorar no meu colo Tens cabelos brancos agora E o tempo passou também por nós É uma afronta O tempo não deveria passar por gente como nós Precisamos de tempo Sinto falta das tuas mãos tão quentes E vejo-te sozinho Mergulhado na dor que reconheço. Hoje acordei com o teu rosto Levo-o comigo E afago-o Não tenho palavras para ti Ou promessas Há muito que me desacreditaste Levo-o no coração e na alma Tão puros E afago-te levemente o rosto E espero que quando acordares Te recordes vagamente de um sonho Em que eu te afagava o rosto E te levava comigo Em paz.