quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

2009

Vou tatuar-te no pulso onde as veias se cortam mais fácil vou tatuar-te na carne que me deste, prender-te na minha pele, dar-te lugar em mim. Vou pedir que me encham os poros de tinta com o nome maior que tu tens que tu és que me encham este lugar vazio e pode ser que não me custe tanto ter deixado de dizer Pai.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Autópsia

Respiro muito devagar ou tento respirar até ao fundo a preparar-me antes da queda, por isso sei que ficaste com os meus pulmões. O olho esquerdo treme, julgo que treinei tão bem as mãos e o corpo para que ninguém soubesse o momento em que me desfaço, que o meu olho esquerdo decidiu acabar com o fingimento. Treme tanto, por isso sei que ficaste com os meus olhos. Fazia arroz de tomate e gostava de partir a salsa muito pequena era um bocadinho feliz um bocadinho crente e tinha fome. Nunca mais tive fome, por isso sei que ficaste com o meu estômago. Tento ouvir músicas novas e todas elas se misturam no mesmo ritmo e som como se só conseguisse ouvir o eco fundo dos meus passos sozinhos. Também os meus ouvidos? Podia falar-te dos meus pés (nunca mais pintei as unhas) ou dos meus lábios (esqueci-me do desenho), do meu peito e pernas, escondidas as curvas de um outro tempo, porque, se não as vejo, não me lembro do tanto. Devolve-me.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Quieta

Deixa-me ficar aqui na minha quietude tresloucada, deixa-me ser a pior e a cruz, deixa-me estar deixa-me estar. Ontem havia uma folha, uma única folha, agarrada aos ramos nus de uma árvore. Essa folha era tão ridícula e tão bela. Fecha-me os olhos para eu não ver já não quero sinceridade nem verdade quero-me a mim sossegada quero ser quem eu sou. Parece tão fácil: ser quem eu sou. Mas isto só para quem nunca se viu apontado a si mesmo, como um punhal de carne que é afinal a nossa própria mão. Deixa-me ser o meu riso e a minha história, deixa-me ser grande e estranha, deixa-me estar deixa-me estar. Que eu quero-me como nunca me quis, que eu quero de volta as minhas pernas e o meu peito, que eu preciso de mim. Devolve-me. E deixa-me estar.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Dias maiores

Como é que és capaz de não compreender, diz-me, normalmente isto acontece por coisas como de facto não compreender. É lixado. De repente, levanta-se um tornado, roubaram-lhe a mãe, mataram-lhe o gato, pelo caminho devo ter destruído um país e rasgado a bandeira do clube de futebol. As pessoas na rua ficam transtornadas algo de grave se passa deitei-me com o irmão ou vendi as jóias de família. Há dias, com o coração mais em baixo (são muitos, por razões várias, normalmente distantes desta merda toda), em que baixamos os olhos, ouvimos para não perder. No fim, perdemos sempre. Espero que o Verão chegue rápido, preciso de beber cervejas na rua e de usar vestidos de algodão.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

todos os medos

No mês de todos os medos choveu sempre. Em mim, a tempestade. À noite, as canções de embalar eram como riscos num vidro perfeito. Queria ter muitas palavras e não tinha muitas palavras. Li tanto e baralhei o destino. No mês de todos os medos. A comida esteve sempre salgada ou falhei a salsa. Choveu sempre, mesmo quando parecia que ia fazer sol. Atravessei a chuva e a cidade. Não sei como fiquei.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Nada

Cuida de ti cuidamos falta-nos muito olha bem e cuida de ti cuidamos as janelas já não abrem a rua é triste os cafés amargos a noite imensa e nós pequenos tão pequenos pequeninos. Cuida de ti cuida de ti cuida de ti. O chão tem migalhas a cortina é a mesma e o resto nada.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ouve

Capitão, capitão, não tenho medo de morrer, desde que me tragas os olhos ciganos do meu primeiro amor e a primeira vez que senti um filho. Leva-me ao colo do meu pai e devolve-me uma tardinha morna em que esperava pela minha mãe. O dia em que ela chegou. Capitão, eu não tenho medo de morrer, desde que me tragas o muro onde escrevi datas de esperança e o blusão preto que me fez feliz a cabine telefónica a camisa de dormir verde com flores e o primeiro dia de tudo. Capitão, que o último seja outra vez o primeiro. E eu vou.