sexta-feira, 22 de junho de 2012

Necessidade

Senhor Doutor, dói-me a tristeza. Não é dor de corno nem saudade. Não, não ando deprimida ou ansiosa. É outra coisa. Doutor, veja lá, encontre um nome para este lugar aqui. Mais ou menos entre o coração e o estômago, mas assim de lado, com reflexos no coração e no estômago, mas não são esses que doem mais. Dói-me o lugar da tristeza. Não é um órgão; tem a certeza? Pois, mas é exactamente aí que me dói. Os sintomas são: dificuldade em respirar fundo, sonhos confusos e longos e perda de memória decente. Só me lembro de coisas que não servem para nada. Queria ter uma dor de garganta, de cabeça, ter partido o pé, deslocado a clavícula. São coisas que as pessoas entendem. Para isto, existem senhas cor-de-rosa e médicos à nossa espera. Podemos dizer aos amigos: não ando muito bem, parti o pé. Se lhes digo que me dói a tristeza, convidam-me para ver filmes, oferecem-me cerveja, falam-me de um novo parque para ir com o miúdo. Eu vejo, eu bebo, eu vou. Enquanto a dor continua. E calo-me. Senhor Doutor, não lhe peço a cura, mas um analgésico. Três ou quatro horas de descanso, ou então oito, ainda melhor. E um nome para este lugar onde me dói tanto.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Em louvor dos homens que nos amam

Existem. Existiram. Por causa deles, vivemos com o coração a assobiar uma música eterna. São homens que nos afastam o mal. Guardamo-los no peito e nos dias. As mãos da nossa memória têm os seus dedos: esguios. Os homens que nos amam sopram vida para dentro de nós. Nos seus colos descansámos. Descansamos. Os homens que nos amam inventaram uma religião, tornaram-nos crentes. São maus, são bons, compatíveis e incompatíveis, feios e bonitos, mas são a nossa carne também. Ainda que o neguemos, são nossos filhos e nossos pais. Os homens que nos amam trazem consigo esta confusão consentida: tornam-nos meninas e mulheres. Fazem de nós únicas. Este é o seu poder. E não compreende qualquer gratidão. Os homens que nos amam são uma bandeira que trazemos hasteada no coração e que ninguém vê. Transformam-nos. Somos só um nome: Esperança. E quem já a perdeu toda e inteira sabe do que falo. E o quanto vale. Os homens que nos amam não nos dão passados nem futuros. Apenas presente. Tornam-nos certas. E é essa certeza que nos salvará a vida toda. Os homens que nos amam foram um apenas ou vários, mas permanecem. Como a música que ninguém ouve, mas que está cá dentro. Como eles.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Adiante

Claro que tenho medo. Estou repleta de medo. Todos os meus poros são medo. Os dias caminham rápido e as derrotas tantas tantas. Porque este é o tempo de todos os medos. Sim, eu tenho medo. Estou aterrorizada. Mas não consigo gritar. Nesta batalha os gritos e as lágrimas ocupam demasiado espaço. Precisamos de verde e de céu dessas coisas que são as únicas que sobram quando ficamos com nada. Precisamos de respirar. E eu respiro. Aqui, no meio do medo. Respiro e avanço. Avanço com o que tenho e com o que não tenho. Avanço em farrapos, em sangue e em carne a doer, se for preciso. Mas avanço. As mulheres choram enquanto caminham. E eu não posso parar.

sábado, 16 de junho de 2012

Paz torta

Quando tu não estás eu faço coisas estúpidas. Tenho de as fazer. É a forma que tenho de me revoltar. Apago cigarros em chávenas não rego as plantas e acendo o candeeiro muito tarde. Quando tu não estás. Tenho conversas longas que me parecem certas e combino coisas para segunda quarta e quinta, sabendo que no domingo na terça e na própria quinta vou desmarcar. Porque mesmo quando tu não estás, estás sempre. Quanto tu estás como as batatas fritas e elas não me sabem a nada. Tudo o que tenho a dizer não cabe nesse espaço. Quando tu estás eu faço coisas estúpidas. Como não reparar nos sinais de trânsito. Portar-me mal de propósito. É a minha forma de me revoltar. E estou sempre bem, o que é surpreendente. Mais ainda descobrir que afinal não. Mas isto é quando gritamos pela Irlanda ou me cortas o cabelo à Cleópatra durante os sonhos. Vai tudo mal no meu subconsciente. Entretanto, passa-me aí o isqueiro. Obrigada.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Sei lá

Não me consigo lembrar não me consigo lembrar. Música, ouvíamos música? Não me consigo lembrar não me consigo lembrar. Essa rua dá-me naúseas e não tenho sorrisos de reserva. Sei tudo aquilo que pedi o custo o custo o custo. E nada. Não me consigo lembrar não me consigo lembrar. Porque tenho esta certeza de que quando os meus pés mal tocavam o chão, nessa crença tão pura, o mundo da lógica ia destruindo o melhor de tudo. Não me consigo lembrar não me consigo lembrar. Houve sempre um caderno com instruções? Não me consigo lembrar não me consigo lembrar.

domingo, 10 de junho de 2012

LEALDADE

Foste-me desleal, a mim, que tive por ti a mais cruel lealdade. Camões dizia que amor é ter com quem nos mata lealdade. Tu dirias que isso é estúpido e essa é toda a razão da tua deslealdade. Foste-me desleal. Eu que daria este peito para que o rasgassem que te levaria ao Inferno se o bilhete fosse de ida que te amei da única maneira que sei: assim, lealmente. Foste-me desleal. E eu que aceito toda essa mesquinha infidelidade que magoa tantos que me magoa a mim mas que não me arranca o brilho. Que não me destrói amores. Somos todos fracos. Não me contes, sempre te pedi. Nunca compreendeste. Mas a lealdade? Como pudeste tu recusar-me essa lealdade, como poderia confiar que me agarrarias quando estivesse a cair? Defender-te-ia ainda que tivesses matado, ama-se um criminoso, o amor é a medida desta impossibilidade. Estaria por ti contra todos, sem essas defesas que ergueste, essa semi-lealdade que é nada. Só existe uma forma de ser leal: em absoluto. Poderás jurar a pés juntos que me foste leal. Sempre. Porque tu não sabes. E, como não sabes, não foste. Ser-se leal é arriscar a vergonha, o diz que disse, o correr mal, o entornar o copo, estragar a noite, deixar cair o muro, pedir desculpa, recomeçar, mas segurar. Segurar sempre quem se ama. E se tanto amor era esse onde escondeste a cegueira? Somos cegos no amor, vendo, pela mesma razão que somos leais aos que não têm perdão. Não é a nossa aprovação que oferecemos. Nem o nosso aplauso. Amamos quem nos envergonha. Amamos quem não segue os nossos passos. Amamos o preto sendo brancos. Amamos o que corre mal de olhos postos no que corre bem cá dentro. Porque é cá dentro que existe o amor. No coração. Nunca na lógica. A lealdade não é uma conquista. Não é o "faz isto que eu te darei aquilo". Ninguém faz por merecer a lealdade. Não é uma construção. É espontânea, como o amor, ergue-se a partir de coisas sem nome. Não nos ficamos. Partimos para a frente da batalha porque o nosso amor levou com uma bala no ombro. Ficamos gigantes. Podemos tudo. E, não podendo nada, pudémos isso: a verdade do que sentimos, a imensidão do que somos, a alma que teremos. Como os meninos. Em pactos de sangue. É preciso tão pouco - basta um dedo a sangrar - para selar um compromisso. Mas, sem lealdade, irás cortar-te em todos os vidros do imaculado que partiste.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Hoje é o momento

Quero viver num mundo liso de desenhos animados o verde é mesmo verde o assim assim é assim assim com direito e esquerdo e no meio existem coisas. Quero que tudo tenha nomes. Sou uma criança este mundo é enorme e não sei todos os sentimentos. Expliquem-me. No mundo dos desenhos animados as coisas entendem-se. Estar triste é estar triste e estar feliz é estar feliz. Preciso de coerência. Não preciso de psicólogos nem de psiquiatras terapeutas psicanalistas bruxos cartomantes pais de santo ou pessoas novas. Basta-me que tudo seja liso porque acredito em coisas brutas. Dizem que o bruto é mau mas o bruto é o que é. Com partes feias, mas é. Nos filmes que o meu filho vê tudo tem cores definidas. Não sei isso da diplomacia. Uso mentiras brancas mas são inteiras. Podiam ser verdades que ficava tudo igual. O que interessa a minha opinião? O último diálogo é connosco. Estamos sós. Não interessa a opinião de alguém. Quero que me falem das coisas e que sejam as mesmas coisas que ouço. Perdemos tanto tempo a ganhar e a perder. Nas fintas. A esperar o momento certo. Hoje é o momento. As coisas têm nomes. E acontecem mesmo quando não se dizem.