sexta-feira, 1 de junho de 2012

Devagar

Enquanto faço o jantar salsa cenoura o dia desce lá fora e este calor deixa-me os pés nus no chão. Espreito e vejo-te lá ao fundo, meio de lado, a esquina que te cobre metade do corpo sei da janela aberta aquela que tu temes porque eu te disse cuidado. Mas está aberta. E eu espreito estou sempre a espreitar. Claro. Sou feliz aqui com tudo o que me falta com tudo o que não posso lembrar. Sou feliz aqui nesta rotina da salsa e cenoura e do texto para escrever e do telefone a tocar e mudo-te os calções enquanto combino coisas de dinheiro e de comida na mesa e de sonhos também. O meu sonho era mais ou menos este. Vamos ficar no mais. Sou feliz aqui, não penso no menos. Enquanto descansas atravessado deixei de fazer contas, sabias? Corri tanto, corri muito, para parar à tua frente e saber que me chega. Depois de perder muito. O dia desce lá fora salsa cenoura a louça por lavar amanhã arranjo as unhas porque isso agora não importa poqrue viajo aqui dentro. Aqui dentro. Sente. Está a bater. Todos o medos. Não quero ter. Parei à tua frente e soube. Quando todos diziam não vás não faças eu escolhi parar à tua frente. Por isso é que quando te espreito e vejo metade de ti por causa da esquina, sou feliz. Precisamos todos de parar. Horas para acordar. Horas para adormecer. Fiquei muito cansada. Quero descansar no teu amor. Amor. Nada me falta.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O dialecto da perfeição

Que queres que te diga? Estás sempre do lado do Bem. Não acusas um defeito, não há nódoa que te manche. Queres que concorde, que não faça um sorriso de lado, que não veja nisso piada? Em dias bons, até ternura. Que queres que te diga? Tenho defeitos, gosto de gente com defeitos, é no "fiz asneira" que acredito. Não percebo a indignação. Não percebo a ausência de mácula. Nunca te arrependeste de nada? Fizeste sempre tudo bem? Há sempre música de fundo na tua vida? Houve um tempo em que te julguei deste lado. O melhor lado. Disseste "fiz asneira". Quero que digas acordei tarde e não podia quero que digas disse algo que não devia quero que digas tenho vergonha quero que digas as coisas de que foges. Não vale dizer "mas eu não sou perfeito". Quero ver a tristeza e o nojo. Não para te acusar, mas para que te possa VER. Sempre te espantaste. Nos piores momentos, não gritei. Eu acredito em gente inteira, que faz asneira. Sei lidar com gente real. Essa língua perfeita, não sei falar.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ainda não sei

Não devia ser assim. Tu disseste que não ia ser assim. Tínhamos um pacto. De todos, eras tu quem me diria. Passaram três anos Pai e foste de vez. Queria falar em sinais, dizer que me vieste visitar em todos os sonhos, que rimos e cantámos. Que sinto o teu cheiro, que sei coisas que não conto. Mentira. Foste de vez. E eu tenho coisas para te explicar. Eu e a minha doida esperança. Há três anos, por esta hora, o meu estômago o meu coração os meus braços, tudo embrulhado naquela viagem, o calor, o estúpido do céu azul, as estúpidas das pessoas com medo na voz. EU NÃO TINHA MEDO. Estava a fazer pactos, a conversar com Deus e com o Diabo, a prometer coisas. Pouparam-nos. Quiseram poupar-nos e eu imaginava que estavas mal, mas que ainda havia tempo. Não houve tempo nenhum. Qual beleza? Foste de vez. Nunca mais te vi. E continuo à tua espera. Pai. Porquê? Ainda não sei.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Os barcos também se afundam

Acho que nunca percebeste o que sentia por ti. Nunca quis realmente saber do acessório. Gostar de ti, achava eu, era gostar de coisas inteiras. Boas. Era a minha verdade e essa verdade era algo que fazia bem. Éramos amigas e éramos amigas. O que eu sentia por ti nunca foram as saídas os copos as coisas de meninas e meninos. Nem sequer as tristezas e confidências. Ou o riso, que era tanto. O que eu sentia por ti era a coisa certa. Eras o meu maior orgulho. Sempre foste o meu orgulho, o que não se inveja, o que se cuida. Eras a minha história. Estiveste lá naqueles momentos. Sabes. Acho que nunca percebeste o que eu sentia por ti. Nunca foi o cabelo ou a roupa emprestada. Eu gostava de dizer e dizia que eras a melhor pessoa que eu conhecia. Eu costumava dizer e dizia que nunca nos tínhamos chateado. Em mais de metade de uma vida, desta que é a nossa, em mais de 15 anos, eu nunca tinha tido uma dúvida de que gostavas de mim. Nem sempre gostei dos teus namorados. Dos teus outros amigos. Das tuas decisões. Mas eu tinha a certeza e dizia que eras a melhor pessoa que eu conhecia. Eu era tua amiga. Éramos amigas. Estava certo. Tu pensas que eu mudei, eu não penso que tenhas mudado. Não mudei. Não mudámos. Um dia disseste coisas que eu não sabia. Um dia disseste coisas que eu não reconhecia. Um dia perdeste. Eu sei, eu sei que quando se perde muito, pouco importa o que se perde depois. Eu não quero saber das coisas que não me contas. Que não te conto. Eu tenho todos estes anos comigo. E este tempo. Mas acho que nunca percebeste o que sentia por ti. Como é que eu digo agora que é tudo certo, depois de ter ficado tudo errado?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Em louvor dos filhos da puta

Estive sempre do lado da defesa dos homens filhos da puta. Os filhos da puta podem contar com o meu respeito. Sempre. Os filhos da puta dizem mentiras suaves, chamam as meninas de rainhas e princesas e ambos os lados sabem perfeitamente do que é que se trata. Os filhos da puta não dizem: "Amo-te". Têm maneiras. Respeitam um código de honra, comum a todos os filhos da puta. Os filhos da puta querem levar as mulheres para a cama. E, não disfarçando, disfarçam. Têm charme, são cavalheiros, dizem: "Importas-te de ir abrir a torneira/ligar o esquentador?", só para terem uns segundos livres e poderem enviar uma mensagem sem causar má impressão. Não causavam. Mas fica-lhes bem. Os filhos da puta são o que são. As cantigas servem para o que se sabe. Ouvimos se quisermos. Dançamos se nos apetecer. Os filhos da puta dão jeito. Mas depois há os que querem ser filhos da puta mas são apenas saloios. Medíocres. Palhaços. Perguntam pela família, mas querem lá saber, fingem que se interessam pela profissão, enquanto tentam calcular as hipóteses de através do choradinho/desabafo/compreensão/tentativa de identificação, conseguirem uma noite. Uma hora, vá. Também serve. É deprimente. O que eu gosto de filhos da puta. O que eu admiro gente que é o que é. Podia ser mais. Mas, foi o que calhou e não esticam a corda. Não me apaixono por filhos da puta. Se já me apaixonei, então era o Rei dos filhos da puta, porque não reparei. Os filhos da puta não servem para amar. Eles não querem. As mulheres não o deveriam querer. Os filhos da puta são engraçados. São mesmo engraçados. A sério. São amigos, embora tentem sempre a sua sorte. Um dia desistem. Tenho amigos filhos da puta e gosto deles. Lá está, ganharam o meu respeito. Palhaços, nem no circo. Coitadinhos, não há paciência. Pintainhos armados em durões, causam-me arrepios. Estes então. Nem sei. Querem chocar e vão pelo atrevimento. Apanham uma mulher que diz uma asneira a meio da frase ou que não tem paciência para a coqueteria e ui, parece que se inflamam: é como se de repente vissem uma auto-estrada de permissão. Palhaços tristes. Nunca serão filhos da puta. Nem outra coisa qualquer.

Segredos

Vejo-as em cima dos saltos e sei. Também os usei. A minha cara redonda, uma luz de madrugada nas bochechas, um bebé de poucos meses lá em casa. Toda essa violência,um susto tamanho, de quando um filho nos toma conta do corpo, nos leva as certezas, nos transforma tornozelos e braços, nos pulveriza como se o amor pudesse fazer desaparecer. E faz. Ou quase. Eu vejo-as em cima dos saltos mortas de medo de não se reencontrarem. A tentativa de fazer o mesmo caminho. E não há saltos que nos valham. Esse caminho é para esquecer. Há outro mais à frente, mas só mais à frente, até lá ainda somos carne. Só carne. O corpo morno é o de um bebé, somos a extensão de outro ser e não nos reconhecemos. As pessoas dizem a beleza falam do brilho passam ao lado da maternidade em adjectivos que esquecem a magia. E a verdade. Porque em cima dos saltos não sabemos que continuamos nuas, que somos apenas carne morna que ainda não nos pertencemos. Se fecharmos os olhos já não nos vemos. Temos um segredo. As mães que passam na rua têm coisas para contar mas nunca ninguém vai saber.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O amor debaixo dos meus pés

Nunca os ouvi discutir. Nunca os ouvi rir. Quando me mudei, viviam no rés-do-chão. Ele ouvia música estranha a horas em que o som só poderia servir, achava eu, para disfarçar o barulho de amantes. Acho que estava enganada. Ela estendia a roupa na corda, tantas cuecas de enfiada e eu aprendia que as relações entre as pessoas são mesmo diferentes e a minha a mais esquizofrénica de todas. Nunca os ouvi discutir. Nunca os ouvi rir. Viviam juntos pela primeira vez em casal. Convidavam os pais e os avós. Ela dizia nos jantares no quintal: “Então mas conte lá como era a sua vida em criança”. Às vezes parecia que eram casados. Há muitos anos. E era bom. E era mau. Parecia-me, feitas as contas, bom. Andavam de bicicleta, compraram duas iguais. Ele decidiu fazer uma feira de livros usados, já não tinham espaço em casa para os livros dele. Um dia ele começou a tocar piano. Ele ou um amigo dele. Tocavam, um ou outro, muito mal. Foi lá passar férias um casal. Com um filho pequeno. Falavam castelhano. Ele ouvia música estranha, já disse? Ela estendia roupa na corda e ia a concertos com as amigas. Colavam recados tão bem escritos, a computador, muito direitinhos, nas paredes do prédio: “Hoje vamos fazer um churrasco”, “Hoje vamos ter um jantar”, “Hoje vamo-nos juntar todos nos jardins”, coisas assim, de vizinhos a serem felizes a viverem juntos pela primeira vez a serem grandes assim como os pais e os avós. Achava bonito. Nunca os ouvi discutir. Nunca os ouvi rir. Houve um dia em que ela passou com um saco na mão, um mundo de desilusão no olhar. O tecto da minha sala caiu e eu desci ao rés-do-chão para pedir o contacto do senhorio. Ele, que ouvia música estranha, não abriu a porta. A música calou-se. Mas ele estava lá, que eu sei. Subi. Fiquei à espera de um papel colado na parede “Hoje vamos terminar a nossa relação e sair de casa”. Não houve papel. Levaram as bicicletas, falaram um bocadinho mais alto por causa das coisas do jardim. E foram. Deixaram a mangueira, as flores, os vasos, as luvas do churrasco, o grelhador, o tapete de entrada. Desistiram como se fugissem. Um berro, um mar de lágrimas, três ou quatro acusações. Teriam bastado. Mas, é como eu dizia, nunca os ouvi discutir. Nunca os ouvi rir.