quarta-feira, 23 de maio de 2012
Segredos
Vejo-as em cima dos saltos e sei. Também os usei. A minha cara redonda, uma luz de madrugada nas bochechas, um bebé de poucos meses lá em casa. Toda essa violência,um susto tamanho, de quando um filho nos toma conta do corpo, nos leva as certezas, nos transforma tornozelos e braços, nos pulveriza como se o amor pudesse fazer desaparecer. E faz. Ou quase. Eu vejo-as em cima dos saltos mortas de medo de não se reencontrarem. A tentativa de fazer o mesmo caminho. E não há saltos que nos valham. Esse caminho é para esquecer. Há outro mais à frente, mas só mais à frente, até lá ainda somos carne. Só carne. O corpo morno é o de um bebé, somos a extensão de outro ser e não nos reconhecemos. As pessoas dizem a beleza falam do brilho passam ao lado da maternidade em adjectivos que esquecem a magia. E a verdade. Porque em cima dos saltos não sabemos que continuamos nuas, que somos apenas carne morna que ainda não nos pertencemos. Se fecharmos os olhos já não nos vemos. Temos um segredo. As mães que passam na rua têm coisas para contar mas nunca ninguém vai saber.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
O amor debaixo dos meus pés
Nunca os ouvi discutir. Nunca os ouvi rir. Quando me mudei, viviam no rés-do-chão. Ele ouvia música estranha a horas em que o som só poderia servir, achava eu, para disfarçar o barulho de amantes. Acho que estava enganada. Ela estendia a roupa na corda, tantas cuecas de enfiada e eu aprendia que as relações entre as pessoas são mesmo diferentes e a minha a mais esquizofrénica de todas. Nunca os ouvi discutir. Nunca os ouvi rir. Viviam juntos pela primeira vez em casal. Convidavam os pais e os avós. Ela dizia nos jantares no quintal: “Então mas conte lá como era a sua vida em criança”. Às vezes parecia que eram casados. Há muitos anos. E era bom. E era mau. Parecia-me, feitas as contas, bom. Andavam de bicicleta, compraram duas iguais. Ele decidiu fazer uma feira de livros usados, já não tinham espaço em casa para os livros dele. Um dia ele começou a tocar piano. Ele ou um amigo dele. Tocavam, um ou outro, muito mal. Foi lá passar férias um casal. Com um filho pequeno. Falavam castelhano. Ele ouvia música estranha, já disse? Ela estendia roupa na corda e ia a concertos com as amigas. Colavam recados tão bem escritos, a computador, muito direitinhos, nas paredes do prédio: “Hoje vamos fazer um churrasco”, “Hoje vamos ter um jantar”, “Hoje vamo-nos juntar todos nos jardins”, coisas assim, de vizinhos a serem felizes a viverem juntos pela primeira vez a serem grandes assim como os pais e os avós. Achava bonito. Nunca os ouvi discutir. Nunca os ouvi rir. Houve um dia em que ela passou com um saco na mão, um mundo de desilusão no olhar. O tecto da minha sala caiu e eu desci ao rés-do-chão para pedir o contacto do senhorio. Ele, que ouvia música estranha, não abriu a porta. A música calou-se. Mas ele estava lá, que eu sei. Subi. Fiquei à espera de um papel colado na parede “Hoje vamos terminar a nossa relação e sair de casa”. Não houve papel. Levaram as bicicletas, falaram um bocadinho mais alto por causa das coisas do jardim. E foram. Deixaram a mangueira, as flores, os vasos, as luvas do churrasco, o grelhador, o tapete de entrada. Desistiram como se fugissem. Um berro, um mar de lágrimas, três ou quatro acusações. Teriam bastado. Mas, é como eu dizia, nunca os ouvi discutir. Nunca os ouvi rir.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Sim sim
Sim, tens razão, não me consigo controlar. Mas sei abrir uma ficha e endireitar os fios e a máquina de costura volta a funcionar. Sei que se deve piscar muito os olhos, assim disfarçadamente para evitar as lágrimas. E se bocejar muitas vezes também é possível desfazer nós na garganta. Não sei ser amiga de todos e não respeito opiniões. Não, não respeito. Algumas são mesmo estúpidas. Mas sei coser botões e tirar nódoas de gordura da roupa e instalar programas no computador que ficam mesmo instalados e eu nem sei como o fiz. Não sei isso de agradar à multidão e desconfio que são mais os que não gostam dos que o que me amam. Sei não me importar com isso. Sei como medir o óleo do carro e a pressão dos penus e desde que o pai morreu tenho-me lembrado de encher o depósito da água. Não da destilada, como devia ser. Mas confio. Sei isto, confio em coisas sem ciência alguma. Às vezes, é pela fé que vou. Pois, não sei amar a direito, mas a minha máquina de lavar rouoa funciona bem, porque eu limpo o filtro e nunca chamo o canalizador e quando o lavatório entupiu, fui eu que o arranjei e tu sabes que mudo a disposição dos móveis sozinha. Pois, essas coisas de que falas, eu não sei como as fazer, confesso. Mas recuperei o PC. Uma fronha de almofada, dois quilos de arroz. E sei fazer carne no forno com castanhas e embrulhos bonitos. E que primeiro se fala com o senhor da funerária e se escolhe um caixão e uma roupa branca e que só depois, só depois, e isto é para reter, se pode ficar triste. Sei como nunca contar coisas importantes que nos doem e contar outras que não dizem nada de nós, ficam assim por cima a disfarçar. Sei fazer isto. Não, não sei isso da sinceridade brutal, porque às vezes não quero ser sincera. É como secar roupa no secador, um mundo de truques, que agora não vou contar. Tens toda a razão, sei fazer isto, toma lá, podes ficar com a razão.
domingo, 13 de maio de 2012
Conta-me tudo
Não, meu amor, não são as coisas absolutamente feias que aconteceram, aquilo em que nos cortámos, há sempre feridas e quedas e desilusões nas relações com as pessoas. Não, meu amor, não é isso de contradições, de me parecer que te amo absolutamente ou de te parecer a ti que me odeias para lá do tolerável. Isso é uma parvoíce. Nunca nos odiámos. Sofremos ambos, que é toda uma outra coisa. Não, meu amor, não sinto saudades das coisas que talvez aches que deveria sentir saudades ou daquelas que todos, quase todos, sentem. Claro que me lembro era todo um horror perder-te era toda uma calamidade deixar de te ver era tanto sangue à nossa volta. Meu amor meu amor meu amor, do que sinto saudade é dessa certeza absoluta. Faz-me falta essa certeza absoluta. Dessa ingenuidade que não é ingenuidade nenhuma. Que não é paixão. Que não é pele nem carne. Que está para lá do ciúme. Uma certeza qualquer que me abandonou e eu não sei se é de ti se é de mim se é da vida.
É só disto que tenho saudades. O resto, faz-se.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Chorar bonito
Quase todos os meus amigos são pessoas que se emocionam. O que é, para mim, um constrangimento, porque não sou pessoa de me emocionar com lágrimas. Tenho este defeito. Explicarei, talvez, por que é um defeito. Esses meus amigos são gente que eu amo e que nunca percebo o que esperam de mim quando têm lágrimas nos olhos. Antes pensei que pudesse ser por pudor, que não sabia lidar com essas lágrimas. Mais tarde, pensei que pudesse ser por incapacidade de sentir. Mas era mentira. Porque eu sinto. Fiz então contas: o M, de lágrimas tantas, a L, a M, a outra M, a C, o P, e tantos outros. Nunca puderam contar com muito da minha parte, quando choram. Eu pego no carro e vou lá às duas da manhã, limpo-lhes a casa de fio e pavio, roubo dinheiro se preciso for, fico horas ao telefone mesmo que não possa, trago pêllos de gato na roupa, mesmo que isso me irrite. Estas coisas eu faço. Mas quando esta gente que eu amo, se emociona, fico sem palavras. Se calhar sou cobarde. Às tantas, fraca. Com o passar dos anos, fui aprendendo a dar a mão, até posso ensaiar um abraço, mas temo sempre que percebam o meu desconforto. Gosto tanto de vocês caramba. Mas essas lágrimas que descem devagar, eu não sei o que fazer com elas. Passem--me o prato que eu lavo, vou ali ao café e trago uma cerveja geladinha, digo parvoíces para vos fazer rir, gozo comigo a torto e a direito, mas fico afastada dessas lágrimas. Porque não as sei chorar. O choro em mim é uma avalanche, nunca é um choro limpo. Chorei demasiado no tempo em que devia ser proibido chorar. Quando choro, choro muito. Não sei chorar devagar. Nem pouco.
Essas lágrimas são bonitas. Por isso é que não as entendo.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Verão em nós
Ai o Verão dentro do peito, tudo azul nos olhos fechados, cheiro a mar, ondas salgadas nos pulmões, vestidos curtos, pernas morenas, desenhos estúpidos e felizes nas costas. O Verão dentro das unhas, areia fina nos ouvidos, nada a temer, sujos de pó, a receber o vento. Ai a tranquilidade de não se esperar e tudo acontecer. Acordar cedo e as molas vermelhas na roupa a dançarem com o sol, cheiro de coco no pensamento. Ai o Verão, cá dentro, que eu já esqueci.
terça-feira, 1 de maio de 2012
No meio de nós
Não mereço todo o teu amor (mereço todo o teu amor). Esse amor tão a sério, vertical, como uma coisa escrita. Esse amor que é. Quando o meu amor é estas ondas e um vulcão e às vezes nada de nada. Não mereço os teus olhos cheios de medo porque eu não tenho medo nunca tive não é de ti nem do teu amor que tenho medo. Não mereço todo o teu amor (mereço todo o teu amor). Como é que posso ser eu a tocar na tua pele se eu às vezes não sou eu? Se entre mim e a chuva não existe nada e entre mim e ti existo eu? Não mereço todo o teu amor (mereço todo o teu amor: não posso partir porque me amas, não posso ficar porque me amas). Se entre nós existo eu, como faço para merecer todo o teu amor, eu, que não mereço todo o teu amor?
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