domingo, 13 de maio de 2012
Conta-me tudo
Não, meu amor, não são as coisas absolutamente feias que aconteceram, aquilo em que nos cortámos, há sempre feridas e quedas e desilusões nas relações com as pessoas. Não, meu amor, não é isso de contradições, de me parecer que te amo absolutamente ou de te parecer a ti que me odeias para lá do tolerável. Isso é uma parvoíce. Nunca nos odiámos. Sofremos ambos, que é toda uma outra coisa. Não, meu amor, não sinto saudades das coisas que talvez aches que deveria sentir saudades ou daquelas que todos, quase todos, sentem. Claro que me lembro era todo um horror perder-te era toda uma calamidade deixar de te ver era tanto sangue à nossa volta. Meu amor meu amor meu amor, do que sinto saudade é dessa certeza absoluta. Faz-me falta essa certeza absoluta. Dessa ingenuidade que não é ingenuidade nenhuma. Que não é paixão. Que não é pele nem carne. Que está para lá do ciúme. Uma certeza qualquer que me abandonou e eu não sei se é de ti se é de mim se é da vida.
É só disto que tenho saudades. O resto, faz-se.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Chorar bonito
Quase todos os meus amigos são pessoas que se emocionam. O que é, para mim, um constrangimento, porque não sou pessoa de me emocionar com lágrimas. Tenho este defeito. Explicarei, talvez, por que é um defeito. Esses meus amigos são gente que eu amo e que nunca percebo o que esperam de mim quando têm lágrimas nos olhos. Antes pensei que pudesse ser por pudor, que não sabia lidar com essas lágrimas. Mais tarde, pensei que pudesse ser por incapacidade de sentir. Mas era mentira. Porque eu sinto. Fiz então contas: o M, de lágrimas tantas, a L, a M, a outra M, a C, o P, e tantos outros. Nunca puderam contar com muito da minha parte, quando choram. Eu pego no carro e vou lá às duas da manhã, limpo-lhes a casa de fio e pavio, roubo dinheiro se preciso for, fico horas ao telefone mesmo que não possa, trago pêllos de gato na roupa, mesmo que isso me irrite. Estas coisas eu faço. Mas quando esta gente que eu amo, se emociona, fico sem palavras. Se calhar sou cobarde. Às tantas, fraca. Com o passar dos anos, fui aprendendo a dar a mão, até posso ensaiar um abraço, mas temo sempre que percebam o meu desconforto. Gosto tanto de vocês caramba. Mas essas lágrimas que descem devagar, eu não sei o que fazer com elas. Passem--me o prato que eu lavo, vou ali ao café e trago uma cerveja geladinha, digo parvoíces para vos fazer rir, gozo comigo a torto e a direito, mas fico afastada dessas lágrimas. Porque não as sei chorar. O choro em mim é uma avalanche, nunca é um choro limpo. Chorei demasiado no tempo em que devia ser proibido chorar. Quando choro, choro muito. Não sei chorar devagar. Nem pouco.
Essas lágrimas são bonitas. Por isso é que não as entendo.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Verão em nós
Ai o Verão dentro do peito, tudo azul nos olhos fechados, cheiro a mar, ondas salgadas nos pulmões, vestidos curtos, pernas morenas, desenhos estúpidos e felizes nas costas. O Verão dentro das unhas, areia fina nos ouvidos, nada a temer, sujos de pó, a receber o vento. Ai a tranquilidade de não se esperar e tudo acontecer. Acordar cedo e as molas vermelhas na roupa a dançarem com o sol, cheiro de coco no pensamento. Ai o Verão, cá dentro, que eu já esqueci.
terça-feira, 1 de maio de 2012
No meio de nós
Não mereço todo o teu amor (mereço todo o teu amor). Esse amor tão a sério, vertical, como uma coisa escrita. Esse amor que é. Quando o meu amor é estas ondas e um vulcão e às vezes nada de nada. Não mereço os teus olhos cheios de medo porque eu não tenho medo nunca tive não é de ti nem do teu amor que tenho medo. Não mereço todo o teu amor (mereço todo o teu amor). Como é que posso ser eu a tocar na tua pele se eu às vezes não sou eu? Se entre mim e a chuva não existe nada e entre mim e ti existo eu? Não mereço todo o teu amor (mereço todo o teu amor: não posso partir porque me amas, não posso ficar porque me amas). Se entre nós existo eu, como faço para merecer todo o teu amor, eu, que não mereço todo o teu amor?
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Total
Tem medo e só desconfia. Não sabe. Do chão de madeira a arder e da tua bota a apagar o fogo que ardia cá por dentro. Ela tem medo e não sabe do meu vestido azul e de que não há como vencer o tempo da inocência. Como não sabe das escadas, das esquinas, átrios de prédios, de um terraço enorme sobre o rio eterno. Ela não sabe que não pode destruir o que viveste. Que te não pode arrancar da ponta dos dedos a textura e do interior da língua, o sabor. Contaste-lhe dos gatos? Da mobília partida? Ela não sabe que o início está em nós, a parte mais bela, a única que vale a pena. Nada pode. Nada podes. Nada podemos. Ela não sabe de tudo isto e quer esmagar o que não é palpável.
Enquanto não me perdoares, ela não pode nada.
Na tua incapacidade de perdão, está a verdade.
S.
És metade do meu tamanho. Dá-me mais jeito secar-te o cabelo se estiveres sentado. E, hoje, fechei os olhos e senti o teu corpinho pequenino dentro de mim. Passou todo este tempo e não passou tempo algum. Quero vestir-te umas calças minúsculas, mas o que mais desejo é que caibas no meu abraço, sem que sobrem pernas e braços. Já não te posso chamar bebé. Tu não te importas, mas tenho de te deixar crescer. Sussurro para que não oiças: bebé, bebé, bebé, meu bebé. Sais a correr do ATL e contas-me coisas de amigos e inimigos que depois ficam amigos. O meu ar de parva deve confundir-te. Talvez me aches estranha. Sempre que olho para ti eu sei que as tuas mãos cresceram, eu sei que agora és um menino que refila comigo e que me diz: "Mãe, tu não sabes jogar", mas aqui no meu coração tu és sempre do tamanho com que nasceste. Continuo a cheirar-te, sem que percebas. E a chamar-te, em segredo, bebé.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Liberdade
É preciso muita coragem para ser livre. Nem imagino. Só sei isto que sei. Que ainda me sinto presa, e vivo, dizem, num país livre. É preciso mais para que exista Liberdade. Só quando todas as portas estiverem abertas. É preciso ser livre por dentro, para criar liberdade lá fora. Eu olho e vejo-os (por vezes também lá estou), agarrados séculos às mesmas coisas. Nunca somos, nunca seremos completamente livres. Quanto mais um país. Cresci num tempo livre onde caminhavam pessoas com coisas ainda por esconder. O meu avô, que era poeta e escrevia "puta de liberdade que me arrancou da terra que eu amava". O meu avô que era colonialista e racista. E que tinha medo que alguém lesse o poema. E que lhe roubassem a reforma. Por causa dele, sou de Esquerda. E, ainda assim, foi livre, que eu sei.
Ai a liberdade. Tão difícil.
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