quinta-feira, 15 de março de 2012

Eu espero

Existem tragédias que não levam apenas quem partiu. Foi sempre disto que eu tive medo: de perder gente para o sofrimento.

Espero que regresses.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Esqueci-me de te enviar

Pai,

Vou seguir os teus conselhos. Melhorar o meu feitio. Poupar mais. Ter paciência. Sorrir. Ser humilde.

E vou-te provar que conseguirei dar a volta por cima. Fazes-me tanta falta pai.

Vou ficar feliz com pequenas coisas. E comprar chocolates em forma de joaninha para o meu filho. E vou sentir-me sempre grata pelo tempo que passei contigo. E por não teres sofrido, na hora da tua partida.

Amo-te pai.

Crueldade quotidiana

Da primeira vez é como um ataque. Reagimos após o choque. Atiramos com tudo: pedras, tempestades, valentias, jogo sujo, que não há maneira de dizer branco no meio do carvão. É um escuro sítio de finos galhos espetados no coração. Depois de os partirmos, ficam sementes de madeira cá por dentro. São elas que nos apodrecem. Que te apodrecem. Da segunda vez sentamo-nos numa cadeira e ficamos a pensar. Leva dois minutos. Aparecem então os troncos e arrombamos portas, convocamos amigos, existem lágrimas mas são curtas e sem sabor algum. Em desassossego quebramos janelas e explodimos com ruas. E apesar disto, do Carnaval que montamos, é tudo essa farsa. Acreditamos. E, da terceira vez, entre os gritos roucos existem bocados de carne morna e nauseabunda, olhamos em frente e aquele rosto é irreconhecível. E o que sentimos é irreconhecível. Este é o tempo de todas as convulsões. Como um vulcão vomitamos a incredulidade e o terror de ainda ser tudo verdade. Vencidos pelo medo, as palavras continuam duras e cortantes mas se prestares atenção há todo um velório em fundo, onde entram pessoas que falam baixinho e as velhas carpideiras são as vozes a fazer eco dentro do nosso coração. Irão continuar por muito tempo a fazer-se ouvir e apesar de tudo o que vier depois, há ali uma parte que nunca se resgata. Das outras vezes, choramos apenas. Dormimos. Se houver sol vamos à rua e, como zombies, deixamos cair chaves de casa, entornamos o café, não atendemos telefones e adiamos coisas tão importantes como a vida.
Da última vez, não existe um único som. Não restou nada para partir, carpir, fazer sumir, acreditar, vangloriar, entontecer, chantagear, derrubar, contrariar, virar à esquerda será o mesmo que virar à direita. Uma ou duas lágrimas por precaução, só para ter a certeza.
Da última vez estamos imunes. E é quando estamos imunes à dor que sabemos que estamos igualmente imunes ao amor.
É um longo caminho que acaba à saída do supermercado ou enquanto estrelamos um ovo.

domingo, 11 de março de 2012

Não sei

"Eu sempre me preocupei contigo. Tu és uma guerreira e tenho medo que alguma coisa corra mal". Um amigo, com o qual não me cruzava há uma vida, disse-me isto e foi como se me atravessasse. Ele quer mudar o mundo, quer construir pessoas e sociedades. Ainda.
E, ontem, olhando para trás, lembrei-me e quando ele me disse que é bom saber-me igual eu quis dizer-lhe que nada mudou e que tudo mudou.
Ontem foi um dia bom.
Ontem foi um dia mau.
Não sei.

terça-feira, 6 de março de 2012

Irmãs

Éramos quatro. Às vezes duas, outras vezes três, nunca só uma. Os nossos braços acabam numa outra e tenho a certeza que esta cicatriz continua e volta à mesma passando por todas nós. Éramos quatro em cada canto do mundo e os nossos pés nunca sairam do mesmo sítio. Sabemos as mesmas coisas, só nós sabemos como é, como foi. Se alguém começa a contar, nenhuma de nós acaba. Fazemos todas parte do final. Vivemos em duzentas casas e nunca saímos do mesmo sítio. Somos um coração, repartido em quatro e a verdade pertence-nos, a mais ninguém. Temos nomes como lealdade e amizade e dor e pena e raiva e outras coisas tantas. Tomámos banho de mangueira mas não é isso que guardámos. Temos debaixo da pele o nome de estações de comboio e de aeroportos. Não somos a varicela nem a casa de bonecas. Somos mato e Praça de Espanha. Somos Rio Douro e Oceano Atlântico. Éramos quatro a chutar pó numa campa, a lavar louça num alguidar. Temos vernizes de várias cores, mas, vendo de perto, só conhecemos uma. Cor.
Somos quatro. Seremos sempre quatro. Esta é a nossa muralha.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Mãe

E tu não vieste. Como é que foste capaz de não vir? Eram os brinquedos, os meus brinquedos todos e o meu coração inteiro enfiados em dois sacos de plástico verde. Como é que foste capaz de me deixar sentada numa pedra fria hora após hora, eu vi o céu e era azul e ficou escuro. Tu não vieste. Contei os carros, foram quase cem. Não estavas em nenhum deles. Contei os dias segunda terça quarta quinta sexta sábado segunda terça quarta quinta sexta sábado eram muitos muitos dias, eram meses, era a minha vida inteira e tu não sabias. Por que é que não perguntaste? E, depois, quando soubeste, pediste desculpa. Pediste-me desculpa. E eu que te amava tanto que te amava acima de tudo de todas as coisas que rezava na Igreja vê lá tu eu rezava o terço porque me tinham dito que as meninas que rezavam que às pessoas boas, que a fé move montanhas que a bondade te poderia trazer. Eu acreditava em recompensas. E tu não vieste. E pediste desculpa, acendeste um cigarro como se nada fosse e eu que te amava tanto que continuei a amar-te, mas nunca mais, percebes, nunca mais te perdoei. Não te peço desculpa por não te ter perdoado. Sabes porquê? Porque tu estás em todos os minutos em que não vieste, em todos os sacos que desfiz, estás no meu coração quebrado irremediavelmente. Nem venhas, não, não venhas agora com razões justificações entendimentos desentendimentos tu não vieste muitas outras vezes. E eu esperei. Eu esperei e gastarei todas as palavras que existem, as pensadas, as ditas, as imaginadas e ainda assim não conseguirei calcular dizer vomitar gritar-te o tempo que esperei. Por isso é que quando enfim vieste, não te reconheci. Era noite, sabias? Fizeste a noite em mim. Por causa de te ter esperado tanto, não sei esperar. Ou acreditar que não vai ser sempre assim.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Confesso

Não posso viver sem o amor que te tenho. Posso viver sem ti, mas não sem este amor que sinto. Quando não amo, sou invisível.