domingo, 12 de fevereiro de 2012
Os outros
É preciso muito tempo para acreditar. Normalmente segundos. Sabemos logo se acreditamos ou não. Dizem-nos coisas como saudade, vem tomar café, hoje pensei em ti, quero o teu rosto na palma da minha mão. E não acreditamos. Pior: não queremos saber. Dizem-nos isto e poderiam estar a dizer que preferem sacos com asas ou café sem açúcar. Não lembramos. São palavras feitas de vento, de vazios, de coisas que não se podem construir. Não ouvimos. Não cheiramos. Não somos gente. E continuam a dizer e quanto mais insistem nas palavras que não ouvimos mais sabemos que não podemos acreditar. Porque quem nos vê para lá do óbvio saberia sempre o que diríamos de volta. Quem amamos, conhece-nos. Os outros, continuam a falar.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Uma pedra
Não foi por causa do Vitorino e foi ele quem a trouxe à luz. A frase: "Eu hei-de amar uma pedra", que é o nome do livro do Lobo Antunes. Desde que a li repito-a tantas vezes dentro da minha cabeça, é como uma ladaínha, é mais uma força. Uma certeza, se calhar. Uma bengala. Repito e é como se soubesse, e não sei porquê. Segura-me e não tenho parado para pensar porquê. Não interessa. Eu hei-de amar uma pedra porque as pedras não saem do sítio, só se as trouxermos connosco. Uma pedra é duradora, só se desfaz depois de séculos e ainda assim é uma pedra e até ser pó sobreviverá a mil tempestades. Eu hei-de amar uma pedra porque a pedra que não tem raízes, está presa ao chão por uma força. Eu hei-de amar uma pedra redonda e pesada, lisa à superfície e esburacada no interior, porque as pedras têm buracos mas são firmes e sólidas, continuam, mesmo depois de tudo. Eu hei-de amar uma pedra eu hei-de amar uma pedra. Uma pedra como eu.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Manchete
Não ter de ouvir não condenar ser condenada não julgar ou ser julgada estacionar o carro como bem entendo usar as meias mais pirosas o chapéu mais ridículo gozar com o mundo por fastio não saber como funciona o programa x não esperar em vão não culpar ser culpada mudar de rua e de sapatos não marcar números certos e levar com mundos desconhecidos.
Passo
Não sei jogar este jogo. Nunca soube jogar este jogo. Da única vez que teimei que sabia, apostei tudo e perdi até o que não tinha. Não vou a jogo. Não sei fazer bluff, não tenho fairplay. Sou bruta. Entro a pés juntos mas é por meiguice. Ainda que não se perceba. Não sei guardar cartas para depois, jogo conforme o apetite. Não faço fintas. E vivo descalça. Não tenho pano verde nem tabuleiro de xadrez. Nem cartas na manga. Digo o que sinto e se volto atrás é porque deixei de sentir. Ou afinal não sentia. Não vou a jogo, já disse. Podem deixar cair a rainha.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
...
De manhã há café, casaco, óculos de sol. Num instante o dia adormece antes que eu tenha acordado. Dizem das pessoas tristes que não tomam atenção ao céu aos sorrisos dos outros ao aproximar da Primavera. Pode ser. Mas o que eu acho verdadeiramente é que as pessoas tristes nunca têm muito tempo.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Pesadelo
O homem quase que me agarrava no sonho e, quando acordei, acabou por me agarrar. Em cima da hora, acordo todos os dias em cima da hora e às vezes com os sonhos agarrados ao coração. Pesam tanto. Disse-lhe: "Tive um pesadelo". "E apanhou-te?" "Não, não me apanhou". Só depois. Apanhou-me no melhor de mim. Olhei para a chávena de café e para a mesa e para as folhas e pensei e pensei e voltei a pensar e antes da raiva e antes da tristeza e da desilusão antes de tudo isto, eu vi. O rosto do homem que não me apanhou no sonho. Eras tu.
Que horror.
Que horror.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Chatice
Como tudo me cansa não há nada que me apeteça fazer até ao fim. Só obrigada. A mais velha de nós quatro diz que é outra coisa, que é vida, que isto de estar sempre a imaginar o que fazer, que é assim uma coisa mesmo boa, como um assado no forno bem temperado. Que vida é esta então que me aborrece no pico? Achava que não, que um dia, em paz, tudo me chegaria. Não chega. Nada me chega e descobri que é isso que me torna chata. E refilona. E insuportável. E engraçada. Tenho assim tantos sonhos e a certeza absoluta que me vão cansar. Já estou cansada e ainda só os imagino.
O que me poderia salvar era a Ciência. Sou tão má a Matemática que perdi a última hipótese de me cansar mais devagarinho.
O que me poderia salvar era a Ciência. Sou tão má a Matemática que perdi a última hipótese de me cansar mais devagarinho.
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