quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Falta de jeito

Desde quando, gostar de alguém, é uma questão de jeito? Já dizia o MEC e como ele tem tanta razão. Deve saber, nem imagino as vezes que não deu jeito a alguém gostar de um MEC.
Tem tudo de dar jeito, às tantas as pessoas são armários qua não cabem numa divisão. Se calhar é por isso que aproveito as coisas que não cabem em algum lugar. Tudo me dá jeito, menos as pessoas. Dar jeito é para a madeira e para os sacos das compras, dão para bricolage e para o balde do lixo. Mas quem amamos? Desde quando é que uma pessoa tem de dar jeito? Dava-me jeito que fizesses menos perguntas, dava-me jeito ficar aqui agora sossegadinha a construir palácios no ceú a estender as pernas a não pensar em nada de especial. Tu também me dás jeito, mas é um jeito que tem de se encaixar, porque o amor exige de nós que estejamos sempre brilhantes. Mentira mentira é mentira. É como a amizade. Não tem de dar jeito nenhum. Como um filho, que, acreditem, ainda menos jeito dá. Gostar de alguém, estar em alguém, é não falar de nada em especial. Não é preciso fogo de artifício. Às vezes, basta não dar jeito, e estar lá.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Amizade

Não sei o que pensar de 2011. Fui obrigada a mudar de casa e de vida, a apenas uma rua de distância. Este foi o ano em que os candeeiros ficaram por pendurar até Dezembro. Este foi o ano cru. Duro de roer, de entender, que acaba em renovação. Este foi o ano em que vi tanta gente sofrer que até me esqueci do que sofria eu. Foi um ano de amizade e isto é de recordar sempre. Terá sido um ano de amor, mas agora ainda é cedo para dizer. O amor tem de ser entendido à distância e estamos todos demasiado próximos.
Este foi o ano em que os meus amigos perderam perderam perderam, e eu perdi com eles.
Foi um ano duro. Tenho um coração. E liberdade. Tenho esta gente que seguro que me segura que se confunde em mim. Tenho um coração. E liberdade.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Meninos

Estou apaixonada por todos os meninos de 5 anos, porque o meu menino tem cinco anos. São todos meus. As mães olham para mim com desconfiança quando, na rua, me dobro para ficar ao nível dos rostos desses rapazinhos e desato a falar de carrinhos e Navegantes da Lua e Beyblades. Até eles ficam espantados. Mas não resisto. Estou apaixonada pelas mãozinhas, pelas palavras, pelo jeito. O meu menino está em todos eles e eu não consigo ficar indiferente. E depois quero dizer: eu tenho um igualzinho a ti. Cinco anos depois ainda dou por mnim deslumbrada com a existência do meu. Acho que isto nunca vai passar. Chama-se felicidade.

Exagero

Um dia destes fico igual. E não quero saber. Vou encolher os ombros e escrever uns textos. A ver se passa. Quero ver como é que fica tudo isto, sem plateia. Um dia destes levanto-me da cadeira e deixo que falem sozinhos. Mais: vou dizer ainda pior e olhar apenas o lado negro de tudo o que aconteceu. Um dia passo-me para o lado de lá. Quero ver como é que fica. Um dia deixo de fingir que injustiça não é isto deixo estar o cafezinho e fico amarga. Acrescento: escrevo num papel, ergo uma bandeira, entalho em madeira os adjectivos maus, as lembranças tortas. Um dia destes cuspo no prato que comi, mergulho no lado do lodo e chispo. Um dia destes componho uma canção que diga tudo e os vizinhos virão perguntar quem gritou. A ver como é que é. Um dia destes digo que não tenho paciência que é tudo uma chatice entorno os sentimentos nos copos de tasca e estilhaço os de cristal. Um dia destes fico cega sem óculos graduados que me valham passo ao largo na rua esqueço o nome da lista telefónica. Avanço: pisco os olhos muitas vezes e digo que não sei quem é. Um dia destes dou uma de gigante com as minhas pernas com luzes a piscar até que desapareça. Um dia destes calo-me e escrevo sobre a crise. Ou faço franja.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ainda

É que me tem morrido gente. Ela disse que as coisas agora já não tinham a mesma piada. Eu sei e ela sabe. Foi só por isso. Porque me custa fechar as luzes e dizer que se acabou a festa.
É que me tem morrido gente à toa. Assim de esquina, a doer a galope. Têm acontecido palavras que não dizíamos.
Não encontro as palavras. Ainda.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Eu tu ela nós os outros

Estas mãos não são minhas, como nenhumas foram. O que é que está dentro das pessoas? O que dirão de nós? Nunca me interessei realmente por aquilo que pensavam de mim e a quem lhe chame coragem eu prefiro chamar cobardia. Depois teria de pensar sobre isso. Colocar-me em questão. Posso chamar-lhe preguiça. Ou liberdade. Estás a ver, podemos ser tantas coisas e nenhuma delas ser verdade.
Gostava de te fazer rir. Nunca te riste muito. Esqueci-me que isso te poderia fazer feliz. Se entras em guerra, depois, é tudo demasiado pesado. Mas sabes bem que mesmo em guerra eu teria rido do meu sangue a jorrar. Mas não tu. Sabes, tenho a certeza absoluta de que noutra ocasião que não fosse esta de me amares, me irias adorar. Sou sempre mais fácil a meio gás.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Mais uma ficha, mais uma volta"

Eu quero dizer isto que envelhecer é horrível. Que o pior dos anos passarem é que se perde tudo tudo. Não se ganha nada. Quero lá saber da sabedoria, quando eu, que não sabia, vivia melhor. Perdem-se pessoas, sonhos, vontades, crenças. Quero não saber de nada outra vez. Ser a tonta do sítio. É melhor ser a tonta do sítio. O pior de envelhecer não são as rugas e a corrida que já custa. Também é. Mas não é por aí. De repente somos todos crescidos e esqueceram-se de dizer coisas como saudade desilusão e conformismo. Esqueceram-se de me avisar que quando souber alguma coisa vou preferir não ter sabido de nada. Não me venham com argumentos vãos. Prefiro fazer amor pior entender mal não perceber o quadro inteiro. Prefiro ter dúvidas porque há certezas das quais abdico. Abdico de saber que há pessoas que já não voltam. Quero-as aqui, não me pacifica que estejam num lugar melhor. Não sei se existe um lugar melhor, também não quero saber de nada disso. Quero tudo aqui outra vez. Não sou só eu. Mesmo os que acreditam em tudo, preferiam não ter perdido nada. Nem ninguém.
Isto de envelhecer é mau, é muito mau. Construímos coisas mas as que se destroem são infinitamente mais perturbadoras. Sabemos coisas. E então? Não me esfreguem na cara o valor das coisas. Eu sempre soube o valor das coisas. Não preciso de perder tudo para dizer olha isto é que era. Quando se está bem, está-se bem. Não tenho de viver mais 40 anos para saber quando é que estive bem.
Envelhecer devia ser proibido. Não tem graça. Não faz bem a ninguém. Não percebo o objectivo. Sentem qualquer pessoa mais velha numa mesa e perguntem-lhe. Arrisque-se ir até ao fundo. Elas que falem. Vá, que por uma vez se diga a verdade.
Não saber é um descanso. E eu estou simplesmente muito cansada.