quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Na jangada

O meu amigo diz-me que é preciso esperar que a tempestade passe. O meu amigo é mais um daqueles que podia morar na casa das pessoas infelizes, ele, que é feliz e não sabe. Somos todos. Esse meu amigo que é tão infeliz (diz ele) ao ponto de ter um sorriso que se torce todo porque não quer sorrir que tem assim um coração valente, mas disfarça sempre, esse meu amigo cheio de fugas e manias que lê muito e que escreve e que me faz rir. Faz-me rir tanto. Nesta jangada, já somos dois, ó tu que esperas que a tempestade passe.
Enquanto o vento me abana seguro-me a esta gente que espera igualmente. Faço como os velhinhos: alimento-me das memórias. Podem tirar-nos tudo, menos aquilo que já vivemos.

sábado, 19 de novembro de 2011

A Rua dos 4 caminhos

As tuas malas são pesadas. E eu não tenho nada para dizer. Sei bem que irá tudo dobradinho e nenhuma nódoa te irá envergonhar do outro lado, quando as desfizeres. Continuo sem nada para te dizer. Sei que terá sido preciso uma noite longa para que partisses, tu que não gostas de ir a lado algum.
Não te esqueças das memórias, leva os retratos (já os guardaste?). Podia ter-te pedido para ficares, gostava de te pedir para ficares, mas aqui há o teu desalento. E eu sei que, longe, tudo recomeça.
Espero que a tua partida não decida o fim daquilo que somos e fomos. Espero que regresses em paz. Que, por fim, consigas esquecer. E isto que te desejo, sabes bem que é tudo, minha irmã.

sábado, 12 de novembro de 2011

Eu

Esta paixão, esta paixão. Houve um tempo em que esta paixão me enchia as veias e eu era um anjo de prata. Fui um anjo de prata. Tu, que viste, diz-me onde deixei as minhas asas, o que fizeram à fogueira onde eu ardia sem me importar?
Este chão que me comia os pés, eu, com dentes em todo o lado do corpo, a minha gargalhada que rasgava a mais funda dor que houvesse, a minha esperança, a espada que eu era.
Tu, que me viste. Quando é que deixei de me cortar?
Eu, que soube todas as danças do mundo, que fui uma labareda, menina, esposa, filha, mulher, mãe, amigo, pai, puta, inocente, cristã e pecadora, crente e deslumbrada. Que fui as vozes de toda a gente, na minha pena?
Tu, que me viste escrever, onde é que guardei a minha pena?
Eu, que aceitei a anormalidade da minha pura e cristalina paranóia, que venci o medo e a vergonha dentro do meu corpo pequeno, que descobri – tão cedo – para onde me guiavam as pernas. Que soube, desde o início, onde ficava o meu lugar. Que fiz eu à minha mais verdadeira loucura?
Quando voltarei a arder? E por quanto tempo?

Crer

Existem alturas em que temos de acreditar acreditar acreditar. Quando nada resta, quando nos caem as paredes e se esfrangalham os alicerces, quando não há nenhuma saída. Há quem lhe chame fé. Que seja. Eu acredito.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Esperança II

Tenho andado por aí. Passo pelas ruas como se fosse outra de mim, finjo que não roubo ao sonho esta vida tonta de circunstância. Agora tem de ser assim. Até que descambe. Até que um milagre. Sabe-se lá. Às vezes os teus lábos repousam nos meus ombros e por breves momentos tudo é algodão doce. Depois a chuva e o frio e as tragédias e a avó tão longe num lar. Todas as promessas a que falto. É. Tenho andado por aí. A ler as almas que admiro, sem lhes dizer nada. Tenho esta secreta certeza que se não disser nada é como se este mau bocado não existisse. Chama-se esperança. E vale tudo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Suave

Fala baixinho, não me levantes assim a lembrança das coisas más, pára de dizer o mesmo ainda que eu o tenha dito já. Ouve-me para lá da defesa desses argumentos que no fundo só cimentam a ausência só garantem a distância. Não fazem nada por nós. Fala baixinho, porque se eu me agiganto, vai-nos doer aos dois.
Fala assim ao de leve, mesmo das coisas que custam. Pousa os braços em cima da mesa: descansa-os e descansa tu. Estamos todos um bocadinho exaustos e se falares baixinho custa menos recomeçar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Essa verdade

A menina do café não sabe o que se esconde por trás das nossas pestanas fechadas. Piscamos os olhos e no momento em que as pálpebras descem há todo um Inferno e há um mar de recordações que a menina do café não pode entender. Entendemos nós, a custo. E, para falar toda essa verdade que é necessária, também nós - até nós, vê bem - não entendemos. Calamo-nos. O arroz e as batatas do almoço confundem-me. Era tão simples. Deveria ser sido simples.
Recuso-me a acreditar que destruímos um império para isto: para que algo tão mesquinho quanto os espectadores possa decidir o que fomos e o que somos.