quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Esperança II
Tenho andado por aí. Passo pelas ruas como se fosse outra de mim, finjo que não roubo ao sonho esta vida tonta de circunstância. Agora tem de ser assim. Até que descambe. Até que um milagre. Sabe-se lá. Às vezes os teus lábos repousam nos meus ombros e por breves momentos tudo é algodão doce. Depois a chuva e o frio e as tragédias e a avó tão longe num lar. Todas as promessas a que falto. É. Tenho andado por aí. A ler as almas que admiro, sem lhes dizer nada. Tenho esta secreta certeza que se não disser nada é como se este mau bocado não existisse. Chama-se esperança. E vale tudo.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Suave
Fala baixinho, não me levantes assim a lembrança das coisas más, pára de dizer o mesmo ainda que eu o tenha dito já. Ouve-me para lá da defesa desses argumentos que no fundo só cimentam a ausência só garantem a distância. Não fazem nada por nós. Fala baixinho, porque se eu me agiganto, vai-nos doer aos dois.
Fala assim ao de leve, mesmo das coisas que custam. Pousa os braços em cima da mesa: descansa-os e descansa tu. Estamos todos um bocadinho exaustos e se falares baixinho custa menos recomeçar.
Fala assim ao de leve, mesmo das coisas que custam. Pousa os braços em cima da mesa: descansa-os e descansa tu. Estamos todos um bocadinho exaustos e se falares baixinho custa menos recomeçar.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Essa verdade
A menina do café não sabe o que se esconde por trás das nossas pestanas fechadas. Piscamos os olhos e no momento em que as pálpebras descem há todo um Inferno e há um mar de recordações que a menina do café não pode entender. Entendemos nós, a custo. E, para falar toda essa verdade que é necessária, também nós - até nós, vê bem - não entendemos. Calamo-nos. O arroz e as batatas do almoço confundem-me. Era tão simples. Deveria ser sido simples.
Recuso-me a acreditar que destruímos um império para isto: para que algo tão mesquinho quanto os espectadores possa decidir o que fomos e o que somos.
Recuso-me a acreditar que destruímos um império para isto: para que algo tão mesquinho quanto os espectadores possa decidir o que fomos e o que somos.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Tum tum
Sabes tu o que é preciso para continuar a sorrir-te e a dizer as coisas que te digo para olhar para o lado passar por cima dar-te o desconto não amuar tentar compreender estar do outro lado ouvir o que não se quer enervar-me um bocadinho parar a tempo ter paciência deixar de contar os dias e viver em amena vizinhança com a dorzinha que não há tempo nem mais capacidade para a outra, a maior e intensa que desloca o centro do mundo e que nos atira para lugares escuros. Sabes o que é preciso para continuar aqui? Fomos os dois culpados, mas só um de nós se foca no essencial.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Para a minha gente
Canta por mim
E diz-lhes
Que sou
A beleza dos olhos deles
Que tenho
A paz do que me dão
Que continuo
Em nome do caminho
Onde nos cruzámos
E que a minha esperança
tem esses nomes.
E diz-lhes
Que sou
A beleza dos olhos deles
Que tenho
A paz do que me dão
Que continuo
Em nome do caminho
Onde nos cruzámos
E que a minha esperança
tem esses nomes.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Gare do Oriente
Na saída do hipermercado havia o mundo inteiro da tua ausência. Lá dentro, luzes. Cá fora, a imensidão desse cinzento que sempre me incomodou. Na Gare do Oriente encontrámo-nos depois de tantos meses, demos abraços, beijos, contámos segredos, quase chorámos. Vi-te envelhecer nessa estação. Rimos tanto. Carrregámos sacos, ajudámos a avó a subir as escadas. Ali esperei-te tantas e tantas vezes. E perdi-te.
Ontem, ao sair do hipermercado, lembrei-me. Tínha esquecido o desamparo e a confusão que me entontecem por não ter um lugar que te recorde. Estou tão longe da casa. Já não existe casa.
Decidi ficar. De pé, no meio de uma praça escura a olhar para todos os lugares que olhaste, a querer saber de ti, a sentir não só o vazio de te ter perdido, como a desolação de não existir um lugar no mundo onde te possa recordar.
A nossa casa, a casa onde cresci. As tuas coisas. A avenida, a rua, o prédio, a cama, os livros, a escrivaninha, o candeeiro da sala e o tapete. De um dia para o outro tudo desapareceu, como se a tua morte tivesse decidido o fim de uma cidade. Mas, ontem, no meio do lugar cinzento onde te ia buscar, onde fui às vezes estúpida, ingrata e impaciente, naquele lugar que são os teus olhos castanhos, encontrei-te, Pai.
Cá em baixo, o snack-bar onde chegámos a almoçar. Lá em cima as bilheteiras. Lá fora o passeio imenso. Julguei ver os teus passos. Quis chamar-te bem alto. Quis dizer-te qualquer coisa. O chão cinzento e o céu cinzento. Foi tanta a falta de ti Pai. Tão triste estares aqui, neste sítio de Chegadas e Partidas e saber que já não vais chegar.
Ontem, ao sair do hipermercado, lembrei-me. Tínha esquecido o desamparo e a confusão que me entontecem por não ter um lugar que te recorde. Estou tão longe da casa. Já não existe casa.
Decidi ficar. De pé, no meio de uma praça escura a olhar para todos os lugares que olhaste, a querer saber de ti, a sentir não só o vazio de te ter perdido, como a desolação de não existir um lugar no mundo onde te possa recordar.
A nossa casa, a casa onde cresci. As tuas coisas. A avenida, a rua, o prédio, a cama, os livros, a escrivaninha, o candeeiro da sala e o tapete. De um dia para o outro tudo desapareceu, como se a tua morte tivesse decidido o fim de uma cidade. Mas, ontem, no meio do lugar cinzento onde te ia buscar, onde fui às vezes estúpida, ingrata e impaciente, naquele lugar que são os teus olhos castanhos, encontrei-te, Pai.
Cá em baixo, o snack-bar onde chegámos a almoçar. Lá em cima as bilheteiras. Lá fora o passeio imenso. Julguei ver os teus passos. Quis chamar-te bem alto. Quis dizer-te qualquer coisa. O chão cinzento e o céu cinzento. Foi tanta a falta de ti Pai. Tão triste estares aqui, neste sítio de Chegadas e Partidas e saber que já não vais chegar.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Saudades
Porque a tua alegria é como uma onda a deslumbrar-me o peito. Fico a olhar-te durante longos momentos e sei que, mesmo que te vás, ficas. Quero-te bem, desse bem que não há. Não sei se é amor, não preciso de nomes para te sentir. Tu também não precisas de um nome para me teres. Agora, que estás longe estes dias grandes, eu bebo da tua alegria quando estamos. E a memória dessa gargalhada segura-me o resto do tempo. Filho.
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