Na saída do hipermercado havia o mundo inteiro da tua ausência. Lá dentro, luzes. Cá fora, a imensidão desse cinzento que sempre me incomodou. Na Gare do Oriente encontrámo-nos depois de tantos meses, demos abraços, beijos, contámos segredos, quase chorámos. Vi-te envelhecer nessa estação. Rimos tanto. Carrregámos sacos, ajudámos a avó a subir as escadas. Ali esperei-te tantas e tantas vezes. E perdi-te.
Ontem, ao sair do hipermercado, lembrei-me. Tínha esquecido o desamparo e a confusão que me entontecem por não ter um lugar que te recorde. Estou tão longe da casa. Já não existe casa.
Decidi ficar. De pé, no meio de uma praça escura a olhar para todos os lugares que olhaste, a querer saber de ti, a sentir não só o vazio de te ter perdido, como a desolação de não existir um lugar no mundo onde te possa recordar.
A nossa casa, a casa onde cresci. As tuas coisas. A avenida, a rua, o prédio, a cama, os livros, a escrivaninha, o candeeiro da sala e o tapete. De um dia para o outro tudo desapareceu, como se a tua morte tivesse decidido o fim de uma cidade. Mas, ontem, no meio do lugar cinzento onde te ia buscar, onde fui às vezes estúpida, ingrata e impaciente, naquele lugar que são os teus olhos castanhos, encontrei-te, Pai.
Cá em baixo, o snack-bar onde chegámos a almoçar. Lá em cima as bilheteiras. Lá fora o passeio imenso. Julguei ver os teus passos. Quis chamar-te bem alto. Quis dizer-te qualquer coisa. O chão cinzento e o céu cinzento. Foi tanta a falta de ti Pai. Tão triste estares aqui, neste sítio de Chegadas e Partidas e saber que já não vais chegar.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Saudades
Porque a tua alegria é como uma onda a deslumbrar-me o peito. Fico a olhar-te durante longos momentos e sei que, mesmo que te vás, ficas. Quero-te bem, desse bem que não há. Não sei se é amor, não preciso de nomes para te sentir. Tu também não precisas de um nome para me teres. Agora, que estás longe estes dias grandes, eu bebo da tua alegria quando estamos. E a memória dessa gargalhada segura-me o resto do tempo. Filho.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
É
Precisei de cortar os pulsos ao ódio vezes sem conta até deixar de esgrimir contigo a perfeição.
Até ver, correu mal.
Até ver, correu mal.
Crer
Já viste isto? Na incerteza, uma vela é um holofote na minha cara. Cega, portanto, vejo escritos inteiros numa página em branco e, nas vozes, discursos impossíveis que não são mais do que o medo das coisas que me apavoram. Coisas que serão nada. Que podem ser nada. Precisava de uma ou duas palavras. É sempre a crença que nos move.
Felizes
As pessoas felizes às vezes têm o cabelo despenteado e não se importam. A água fica gelada no banho e não querem saber. As pessoas felizes passeiam cães minúsculos nas ruas e não estão a pensar em nada de especial. Fazem conversa no café. Perguntam quantos anos tem a criança. As pessoas felizes são simples. Não carregam matemátcas de emoções. Não se enganam no caminho porque se lembraram de uma coisa triste ou porque se assustaram com uma possibilidade.
As pessoas felizes bebem chá.
Gravam programas para ver mais tarde.
Arrumam papéis em caixas.
Têm sempre muito tempo.
Apercebem-se da passagem das estações.
Comemoram datas. Não as riscam do calendário.
Mas isto é só o que eu acho.
As pessoas felizes bebem chá.
Gravam programas para ver mais tarde.
Arrumam papéis em caixas.
Têm sempre muito tempo.
Apercebem-se da passagem das estações.
Comemoram datas. Não as riscam do calendário.
Mas isto é só o que eu acho.
Ponto de partida
Vou ali espreitar-me ao fundo. De pés firmes no lugar do início, vou recontar os passos que me trouxeram aqui. Antes do Fim. Antes da Morte. Antes da Saudade. Antes de muitas coisas que haveriam de acontecer e nos enrolar na noite.
Se eu correr atrás de mim, quase que aposto que ainda nos encontro.
Se eu correr atrás de mim, quase que aposto que ainda nos encontro.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Pouco
Antes paravas lá no sítio onde eu te dizia as coisas que não te podia falar. Lias-me. Tentavas perceber. Voltavas atrás na frase e tentavas descobrir-me.
Hoje pensas que já sabes tudo de mim. E, se calhar, sabes. Mas, aviso-te, e este aviso não é uma seta, não te assustes, aconselho-te, ou melhor, conto-te, que existem sempre coisas que não sabemos.
Habituaste-te a esta superfície de mim e a culpa também foi minha. Às tantas, foi exclusivamente minha.
Caminho ao teu lado e há sempre uma rua a separar-me de ti. Enquanto aparas o bigode e arranjas a barba, eu sei coisas que não te digo e dentro de mim continuo a ser eu, sem que tu saibas.
O teu amor, que é uma coisa física mas tão profunda quanto uma raiz. O teu amor que é como uma moldura que eu olho. E tu passas. Fazes os teus trabalhos. Sentas-te a mesas de cafés. Falas com pessoas que eu não conheço, que não me conhecem, que nunca me apresentaste. Não faço questão. Já não faço questão.
Esta é a minha superfície. Não tenho vagar nem oportunidade, de momento, para ser outra coisa.
Mas lembro-me.
Hoje pensas que já sabes tudo de mim. E, se calhar, sabes. Mas, aviso-te, e este aviso não é uma seta, não te assustes, aconselho-te, ou melhor, conto-te, que existem sempre coisas que não sabemos.
Habituaste-te a esta superfície de mim e a culpa também foi minha. Às tantas, foi exclusivamente minha.
Caminho ao teu lado e há sempre uma rua a separar-me de ti. Enquanto aparas o bigode e arranjas a barba, eu sei coisas que não te digo e dentro de mim continuo a ser eu, sem que tu saibas.
O teu amor, que é uma coisa física mas tão profunda quanto uma raiz. O teu amor que é como uma moldura que eu olho. E tu passas. Fazes os teus trabalhos. Sentas-te a mesas de cafés. Falas com pessoas que eu não conheço, que não me conhecem, que nunca me apresentaste. Não faço questão. Já não faço questão.
Esta é a minha superfície. Não tenho vagar nem oportunidade, de momento, para ser outra coisa.
Mas lembro-me.
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