terça-feira, 16 de agosto de 2011

Crer

Já viste isto? Na incerteza, uma vela é um holofote na minha cara. Cega, portanto, vejo escritos inteiros numa página em branco e, nas vozes, discursos impossíveis que não são mais do que o medo das coisas que me apavoram. Coisas que serão nada. Que podem ser nada. Precisava de uma ou duas palavras. É sempre a crença que nos move.

Felizes

As pessoas felizes às vezes têm o cabelo despenteado e não se importam. A água fica gelada no banho e não querem saber. As pessoas felizes passeiam cães minúsculos nas ruas e não estão a pensar em nada de especial. Fazem conversa no café. Perguntam quantos anos tem a criança. As pessoas felizes são simples. Não carregam matemátcas de emoções. Não se enganam no caminho porque se lembraram de uma coisa triste ou porque se assustaram com uma possibilidade.
As pessoas felizes bebem chá.
Gravam programas para ver mais tarde.
Arrumam papéis em caixas.
Têm sempre muito tempo.
Apercebem-se da passagem das estações.
Comemoram datas. Não as riscam do calendário.
Mas isto é só o que eu acho.

Ponto de partida

Vou ali espreitar-me ao fundo. De pés firmes no lugar do início, vou recontar os passos que me trouxeram aqui. Antes do Fim. Antes da Morte. Antes da Saudade. Antes de muitas coisas que haveriam de acontecer e nos enrolar na noite.
Se eu correr atrás de mim, quase que aposto que ainda nos encontro.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pouco

Antes paravas lá no sítio onde eu te dizia as coisas que não te podia falar. Lias-me. Tentavas perceber. Voltavas atrás na frase e tentavas descobrir-me.
Hoje pensas que já sabes tudo de mim. E, se calhar, sabes. Mas, aviso-te, e este aviso não é uma seta, não te assustes, aconselho-te, ou melhor, conto-te, que existem sempre coisas que não sabemos.
Habituaste-te a esta superfície de mim e a culpa também foi minha. Às tantas, foi exclusivamente minha.
Caminho ao teu lado e há sempre uma rua a separar-me de ti. Enquanto aparas o bigode e arranjas a barba, eu sei coisas que não te digo e dentro de mim continuo a ser eu, sem que tu saibas.
O teu amor, que é uma coisa física mas tão profunda quanto uma raiz. O teu amor que é como uma moldura que eu olho. E tu passas. Fazes os teus trabalhos. Sentas-te a mesas de cafés. Falas com pessoas que eu não conheço, que não me conhecem, que nunca me apresentaste. Não faço questão. Já não faço questão.
Esta é a minha superfície. Não tenho vagar nem oportunidade, de momento, para ser outra coisa.
Mas lembro-me.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Desconhecida

O amor entre duas pessoas é uma coisa estranha. O amor romântico, que do outro não há nada para dizer. Existindo, basta senti-lo. O amor de um pai por um filho. Não há como. É genético, passa pelo cordão umbilical, está na pele, existe por dentro. Falo do amor entre um homem e uma mulher ou entre um homem e outro homem entre uma mulher e outra mulher. O amor entre dois indivíduos que não partilham genes. É duvidoso e tantas vezes mentiroso. Haverá realmente alguém tão bom ao ponto de amar e bastar-se nisso? Alguém que ame tão verdadeiramente que diga: vai-te então se serás mais feliz sem mim ainda que eu te ame, vai-te com ele ou ela, que eu amar-te-ei sozinha sem sofrimento ou com um sofrimento todo ele explicado pelo bem que te quero. O amor entre duas pessoas tem tanto segredo. Tem tanta complicação. Tem tanto de bom como de impossível. Num momento voamos e existem brilhos no que vemos e é impossível amar outro ou outra. Mentira. Amamos a seguir. E amamos outra vez. E não é o mesmo ou a mesma ali. Dizem que, no fim das contas, o que importa é o amor que se sente. Então não somos meras passagens, então não deveria custar deixar partir ou partirmos nós. Se custa e não é amor, há que encontrar outra palavra. Desconhecida.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Não

Não me convidem para almoçar. A minha gente anda triste e não me apetece falar sobre isso. Não me discursem sobre o que está na moda, os folhos que voltaram em força e que o amarelo anda a encher as montras. Sinto-me capaz de esbofetear alguém. Não se sentem comigo à mesa de cafés, que a minha gente está perdida e eu não tenho pachorra para fingir que basta ter fé. É que me ensinaram tudo mal. Não me ponham uma toalha branca à frente com doces de ternura que nestes dias há pouco que me comova. A minha gente está a ficar com rugas antes dos sorrisos. Para onde quer que olhe, os meus amigos estão cansados. Pior: rendidos. Não me contem da dieta, do amante, da professora, da colega irritante. Quero lá saber. A minha gente murcha no metro, é insultada no emprego, sente-se sugada pela ineficácia. Estou com a minha gente, não convosco.

Desajustada

Custa-me escrever, porque não é dor que sinto. Custa-me escrever aquilo que é a vida a pregar rasteiras, a colocar-mne à prova, vezes e vezes sem conta. Já estive cansada e triste. Custa-me escrever porque não é cansaço nem tristeza. Não encontro as palavras para dizer o que não tem nome. Que é a vida a fazer das suas. Todos os dias acordo a acreditar que não, o erro é meu, sou eu que não vejo, não vislumbro, algures por aí está o que não enconbtro. Estou cega. Estarei cega? Custa-me perder as palavras, tenhpo medo de me perder a mim também. Quero falar de amor. De ternura. De verdade. De força. Quero falar de qualquer coisa que não seja a vida a ser o que ela é: esta roleta russa.
Não gosto de escrever sobre o que não entendo.