segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Pólos
Meu amor eu sei que não percebes o exército de gente que entristeceu e ainda assim parece que não. Os condenados desde o início. Exilados dentro do próprio peito. Meu amor, eu percebo o teu ar de espanto, a tua fúria frustrada porque queres que eu seja como tu que entenda como tu. Mas eu não tenho os teus olhos meu amor. Vi coisas feias meu amor. Como eles viram. Senti coisas que não são boas de sentir. Como eles também. Meu amor, se pudesse teria fingido que não vi, só para te acalmar. Teria pintado um risco azul nas pálpebras para que os meus olhos te fizessem lembrar o Céu e não o Inferno. Meu amor, não posso. Como eles não podem. Meu amor, se tenho amor por ti, é por isto: porque em ti descanso. Sei que não viste. E descanso. Sei que não sabes e descanso. Amo-te por seres menos triste.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Custo
Isto desta vez custa mais, está-me a custar, há muitas lágrimas nos meus olhos e saem, rebentam sem aviso, e eu nem sequer sou assim. Mas, vejam, se choro não é pelo que perdi, é pelo que não dei. Não lhe dei. As minhas lágrimas só caem assim pelo meu ventre.
E oiço ao longe:
"Nós damos a volta a isto".
Estou tonta das voltas. Cansada das quedas. Com o tempo, custa mais recomeçar.
E oiço ao longe:
"Nós damos a volta a isto".
Estou tonta das voltas. Cansada das quedas. Com o tempo, custa mais recomeçar.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Ainda assim amor
Quando disseste que ficavas foi quando falaste amor e essa palavra assim dita pelos teus lábios tantas vezes repetida em gestos que vi mas não te contei eu sabia que era amor e amor às vezes também é assim. Força. Quando disseste partida disseste tantas mais vezes do que as que falaste amor mas não tantas como as que eu vi amor. Fiz-te todas as perguntas faço sempre muitas perguntas para ver se sabia e se adivinhava como seria quando seria a tua partida e ainda assim amor. Ainda assim amor e a palavra que se arrasta e que abre feridas nos mesmos lábios que beijam nos lábios que dizem: “Vou-me embora”. Vais. Vai. Vou.
Quando dançámos e esqueceste que dançámos. Não te vou falar de todos os gestos em que disseste amor e em que brilhaste em mim. Não te vou contar a respiração que te acalmou. Nem o cheiro. Ou o resto que sabes, sempre soubeste. Porque isto é o que eu sou. E o que tu és também é amor. Não vou explicar-te que só encostada a ti, poderia encontrar paz. Porque, sendo amor, saberias. Por que é amor, sabes. O resto, são escolhas.
Quando dançámos e esqueceste que dançámos. Não te vou falar de todos os gestos em que disseste amor e em que brilhaste em mim. Não te vou contar a respiração que te acalmou. Nem o cheiro. Ou o resto que sabes, sempre soubeste. Porque isto é o que eu sou. E o que tu és também é amor. Não vou explicar-te que só encostada a ti, poderia encontrar paz. Porque, sendo amor, saberias. Por que é amor, sabes. O resto, são escolhas.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Primavera
Caminho ao teu lado e espero pela Primavera. Há coisas que quis e que enterrei há muito tempo. Esperava que a felicidade não fosse isto de fazer contas, subtrair desejos, acrescentar vontades. As tuas vontades. Multiplicar paciências, somar tudo e esperar que resulte. Que dê certo. Olho-te tranquilo, enquanto espero que a neve derreta, e gostava de querer ser como tu. É como se vivesse num quadrado fechado: quanto mais luto, mais o quadrado se aperta sobre mim.
Ainda que o Inverno mal tenha começado, é se tenha passado o Verão, é sempre à espera da Primavera que estou.
Ainda que o Inverno mal tenha começado, é se tenha passado o Verão, é sempre à espera da Primavera que estou.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
O medo
Ele diz coisas que eu nunca ouvi. Tem ideias que me surpreendem. Fala de rotina. Do medo de perder a ilusão de que é possível viver com o sangue fervente. Para sempre. Oiço-o e quero desembaraçar-lhe os nós do coração, trazê-lo comigo numa viagem a outros sentimentos. Tirar-lhe o tapete e fazê-lo voar de olhos fechados. Ele tenta proteger-se do fim da mesma forma que se protegia no início. Diz coisas que eu não entendo. Por isso, nunca fica muito tempo. Ele pode ficar mil dias, mas as malas que traz nunca ganham pó. Remexe-as, abre-as vezes sem conta, não deixa nada fora do sítio. Quando me deito, sei que está ao meu lado, mas é como se esse lado da cama continuasse vazio. Fomos tantas vezes só metade, que me apercebo que somos só metade. Quando lhe digo isto, indigna-se. Tem olhos verdes que quando se zangam são lodo espesso, têm animais prontos a lutar dentro deles. No início, não me apercebia, não ligava. Mas, agora, quando ele responde em fúria às coisas que lhe digo, por vezes calo-me. Porque ele diz coisas que eu não entendo. E fico só mais este bocadinho a fazer de conta que não vejo as malas arrumadas junto à porta.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Voz
Não sei viver calada. Não sei fingir, virar a cara para o outro lado. Não conheço isso que é o equilíbrio entre o que se quer muito e apenas o que se tem. Quero o tom certo da melodia, a exacta quantidade do que me preenche o coração. Porque eu não ando pelos caminhos a encolher os ombros, porque perdi muito à conta de tentar e entrego-me esse direito. De levantar a voz em minha defesa. Não tenho de viver calada. Não admito que me queiram calar.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Tempos
Sou do tempo em que se partilhavam cigarros e éramos felizes assim. Sou do tempo em que se dizia: “Amo-te para sempre” e todos sabíamos que não podia ser para sempre. Mas prometíamos. Não concebíamos outra espécie de amor. Sou do tempo das serenatas e das drogas leves e pesadas. Da mão que ergue a outra mão, que não julga. Sou do tempo em que se experimentava tudo: dormir ao relento, trair, ser traído, chorar uma semana inteira, prometer atravessar um oceano só para o ver. Sou do tempo em que um amor podia durar apenas uma semana mas ficava marcado a vincos no coração. E aquela pessoa nunca se destruía ao nosso olhar. Sou do tempo em que os planos de futuro eram todos bons ou uma treta, dependendo da qualidade do vinho que se estivesse a beber. Era tão longe o futuro. Éramos tão felizes. Todos. Um por um.
Agora, não sou de tempo algum. Talvez alguém tenha descoberto alguma coisa que eu ainda não descobri. Talvez se tenham já todos habituado. À perda, à desilusão, ao desencanto. Mas como, como, como? Dou por mim a olhar nos olhos de quem foi de um tempo que eu não sei, a ver se deslindo, a ver se me encontro, a ver se dou com alguma outra coisa igual à minha. Mas não. Ainda guardo esta eterna revolta que não consinto que descambe em melancolia. Podia ser cansaço. Não é. Eu, simplesmente, não vos compreendo.
Agora, não sou de tempo algum. Talvez alguém tenha descoberto alguma coisa que eu ainda não descobri. Talvez se tenham já todos habituado. À perda, à desilusão, ao desencanto. Mas como, como, como? Dou por mim a olhar nos olhos de quem foi de um tempo que eu não sei, a ver se deslindo, a ver se me encontro, a ver se dou com alguma outra coisa igual à minha. Mas não. Ainda guardo esta eterna revolta que não consinto que descambe em melancolia. Podia ser cansaço. Não é. Eu, simplesmente, não vos compreendo.
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