Quando disseste que ficavas foi quando falaste amor e essa palavra assim dita pelos teus lábios tantas vezes repetida em gestos que vi mas não te contei eu sabia que era amor e amor às vezes também é assim. Força. Quando disseste partida disseste tantas mais vezes do que as que falaste amor mas não tantas como as que eu vi amor. Fiz-te todas as perguntas faço sempre muitas perguntas para ver se sabia e se adivinhava como seria quando seria a tua partida e ainda assim amor. Ainda assim amor e a palavra que se arrasta e que abre feridas nos mesmos lábios que beijam nos lábios que dizem: “Vou-me embora”. Vais. Vai. Vou.
Quando dançámos e esqueceste que dançámos. Não te vou falar de todos os gestos em que disseste amor e em que brilhaste em mim. Não te vou contar a respiração que te acalmou. Nem o cheiro. Ou o resto que sabes, sempre soubeste. Porque isto é o que eu sou. E o que tu és também é amor. Não vou explicar-te que só encostada a ti, poderia encontrar paz. Porque, sendo amor, saberias. Por que é amor, sabes. O resto, são escolhas.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Primavera
Caminho ao teu lado e espero pela Primavera. Há coisas que quis e que enterrei há muito tempo. Esperava que a felicidade não fosse isto de fazer contas, subtrair desejos, acrescentar vontades. As tuas vontades. Multiplicar paciências, somar tudo e esperar que resulte. Que dê certo. Olho-te tranquilo, enquanto espero que a neve derreta, e gostava de querer ser como tu. É como se vivesse num quadrado fechado: quanto mais luto, mais o quadrado se aperta sobre mim.
Ainda que o Inverno mal tenha começado, é se tenha passado o Verão, é sempre à espera da Primavera que estou.
Ainda que o Inverno mal tenha começado, é se tenha passado o Verão, é sempre à espera da Primavera que estou.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
O medo
Ele diz coisas que eu nunca ouvi. Tem ideias que me surpreendem. Fala de rotina. Do medo de perder a ilusão de que é possível viver com o sangue fervente. Para sempre. Oiço-o e quero desembaraçar-lhe os nós do coração, trazê-lo comigo numa viagem a outros sentimentos. Tirar-lhe o tapete e fazê-lo voar de olhos fechados. Ele tenta proteger-se do fim da mesma forma que se protegia no início. Diz coisas que eu não entendo. Por isso, nunca fica muito tempo. Ele pode ficar mil dias, mas as malas que traz nunca ganham pó. Remexe-as, abre-as vezes sem conta, não deixa nada fora do sítio. Quando me deito, sei que está ao meu lado, mas é como se esse lado da cama continuasse vazio. Fomos tantas vezes só metade, que me apercebo que somos só metade. Quando lhe digo isto, indigna-se. Tem olhos verdes que quando se zangam são lodo espesso, têm animais prontos a lutar dentro deles. No início, não me apercebia, não ligava. Mas, agora, quando ele responde em fúria às coisas que lhe digo, por vezes calo-me. Porque ele diz coisas que eu não entendo. E fico só mais este bocadinho a fazer de conta que não vejo as malas arrumadas junto à porta.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Voz
Não sei viver calada. Não sei fingir, virar a cara para o outro lado. Não conheço isso que é o equilíbrio entre o que se quer muito e apenas o que se tem. Quero o tom certo da melodia, a exacta quantidade do que me preenche o coração. Porque eu não ando pelos caminhos a encolher os ombros, porque perdi muito à conta de tentar e entrego-me esse direito. De levantar a voz em minha defesa. Não tenho de viver calada. Não admito que me queiram calar.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Tempos
Sou do tempo em que se partilhavam cigarros e éramos felizes assim. Sou do tempo em que se dizia: “Amo-te para sempre” e todos sabíamos que não podia ser para sempre. Mas prometíamos. Não concebíamos outra espécie de amor. Sou do tempo das serenatas e das drogas leves e pesadas. Da mão que ergue a outra mão, que não julga. Sou do tempo em que se experimentava tudo: dormir ao relento, trair, ser traído, chorar uma semana inteira, prometer atravessar um oceano só para o ver. Sou do tempo em que um amor podia durar apenas uma semana mas ficava marcado a vincos no coração. E aquela pessoa nunca se destruía ao nosso olhar. Sou do tempo em que os planos de futuro eram todos bons ou uma treta, dependendo da qualidade do vinho que se estivesse a beber. Era tão longe o futuro. Éramos tão felizes. Todos. Um por um.
Agora, não sou de tempo algum. Talvez alguém tenha descoberto alguma coisa que eu ainda não descobri. Talvez se tenham já todos habituado. À perda, à desilusão, ao desencanto. Mas como, como, como? Dou por mim a olhar nos olhos de quem foi de um tempo que eu não sei, a ver se deslindo, a ver se me encontro, a ver se dou com alguma outra coisa igual à minha. Mas não. Ainda guardo esta eterna revolta que não consinto que descambe em melancolia. Podia ser cansaço. Não é. Eu, simplesmente, não vos compreendo.
Agora, não sou de tempo algum. Talvez alguém tenha descoberto alguma coisa que eu ainda não descobri. Talvez se tenham já todos habituado. À perda, à desilusão, ao desencanto. Mas como, como, como? Dou por mim a olhar nos olhos de quem foi de um tempo que eu não sei, a ver se deslindo, a ver se me encontro, a ver se dou com alguma outra coisa igual à minha. Mas não. Ainda guardo esta eterna revolta que não consinto que descambe em melancolia. Podia ser cansaço. Não é. Eu, simplesmente, não vos compreendo.
A pomba e o gato
Quando se encontraram não sabiam que existem mundos que não se tocam. Suspeitavam de afinidades e atraídos por aquilo que então os mataria decidiram coisas que não têm nome. Não se encontraram, porque já há muito que estava decidido o encontro. Era como se tivessem esperado, como se sempre estivessem estado à espera e nem fossem precisas as palavras que usamos no início. Antes da voz, era o sangue. Antes do abraço, era a pele.
Viviam nos olhos um do outro e, durante algum tempo, a urgência de se tocarem era maior do que o medo. O gato, impaciente, rondava, roçava na perna do desejo, miava alto, procurava território. O gato não sabia que do outro lado estava uma pomba. E que na lei da Natureza o gato come a pomba. Mas o gato apaixonou-se pela pomba, pelos voos altos, pela paz e pelo branco da madrugada. A pomba girava no céu e caminhava ao lado dos humanos sem os temer, quase os gostando. O gato, fingidor, não obedecia a regras e às vezes mordia a mão de quem tentava um carinho. A pomba olhou o gato e nos segundos que ditam uma inteira vida não acreditou. Quando o gato passou, a pomba abriu asas e fugiu. Sempre que o gato se aproximava, tentando um chão para os dois, a pomba afastava-se. E, do alto, num parapeito de pedra, ela olhava o gato já com o coração cheio de medo. Esse medo que nasce das coisas que não se percebem. Como é que pode ser o amor de um gato e de uma pomba?
Não podia. Mas o gato, marginal, acreditava que sim. Ele não tinha ainda reconhecido no outro animal uma pomba. Apaixonara-se pela liberdade do voo, pela calma contida na paragem. Amava já as asas da pomba. O gato não sabia que os mundos dos dois eram tão distantes quanto o céu da terra. Por isso, o gato saltou.
Nesse dia, a pomba não fugiu. Descreveu círculos no chão, olhou o gato nos olhos e seguiu o felino. A pomba não acreditava mas, num repente, queria ter quatro patas e uma cauda. O gato não sabia, mas ansiava pelas asas que nunca tivera para poder conhecer o mundo do seu amor. Os gatos não têm asas. As pombas precisam de céu.
Enquanto durou o tempo que lhes estava destinado, o gato tentou fazer da pomba gato e a pomba tentou mostrar ao gato a claridade do dia. O gato perdia-se na noite e muitas vezes o seu miar era como um uivo. Incompreendido, assustado com o possível voo da pomba, o gato começou a cercar a ave. E o abraço era tão apertado e confuso, que o gato foi arranhando a amada. Primeiro partiu-lhe uma asa, depois arrancou-lhe uma pena. A pomba, partida, olhava para o azul e para o branco das nuvens e tinha medo de um dia deixar de voar. O gato tinha descoberto que ela era uma pomba e ela percebido que o gato nunca poderia voar.
Às vezes, a pomba desaparecia. Ficava longo tempo no céu, mas quando olhava para baixo, via o gato de encontro aos passeios, magro de fome do amor que lhe tinha, doido das asas com que não nascera. Condoída, a pomba descia à terra. E o gato arrancava-lhe mais uma pena da asa. Foi assim durante muito tempo. Até a pomba ficar moribunda e descer ao chão. O gato olhando o seu amor partido, deitou-se ao lado da pomba e, esperou com ela, pelo fim. E descobriu, já tarde, que o medo também pode matar.
Viviam nos olhos um do outro e, durante algum tempo, a urgência de se tocarem era maior do que o medo. O gato, impaciente, rondava, roçava na perna do desejo, miava alto, procurava território. O gato não sabia que do outro lado estava uma pomba. E que na lei da Natureza o gato come a pomba. Mas o gato apaixonou-se pela pomba, pelos voos altos, pela paz e pelo branco da madrugada. A pomba girava no céu e caminhava ao lado dos humanos sem os temer, quase os gostando. O gato, fingidor, não obedecia a regras e às vezes mordia a mão de quem tentava um carinho. A pomba olhou o gato e nos segundos que ditam uma inteira vida não acreditou. Quando o gato passou, a pomba abriu asas e fugiu. Sempre que o gato se aproximava, tentando um chão para os dois, a pomba afastava-se. E, do alto, num parapeito de pedra, ela olhava o gato já com o coração cheio de medo. Esse medo que nasce das coisas que não se percebem. Como é que pode ser o amor de um gato e de uma pomba?
Não podia. Mas o gato, marginal, acreditava que sim. Ele não tinha ainda reconhecido no outro animal uma pomba. Apaixonara-se pela liberdade do voo, pela calma contida na paragem. Amava já as asas da pomba. O gato não sabia que os mundos dos dois eram tão distantes quanto o céu da terra. Por isso, o gato saltou.
Nesse dia, a pomba não fugiu. Descreveu círculos no chão, olhou o gato nos olhos e seguiu o felino. A pomba não acreditava mas, num repente, queria ter quatro patas e uma cauda. O gato não sabia, mas ansiava pelas asas que nunca tivera para poder conhecer o mundo do seu amor. Os gatos não têm asas. As pombas precisam de céu.
Enquanto durou o tempo que lhes estava destinado, o gato tentou fazer da pomba gato e a pomba tentou mostrar ao gato a claridade do dia. O gato perdia-se na noite e muitas vezes o seu miar era como um uivo. Incompreendido, assustado com o possível voo da pomba, o gato começou a cercar a ave. E o abraço era tão apertado e confuso, que o gato foi arranhando a amada. Primeiro partiu-lhe uma asa, depois arrancou-lhe uma pena. A pomba, partida, olhava para o azul e para o branco das nuvens e tinha medo de um dia deixar de voar. O gato tinha descoberto que ela era uma pomba e ela percebido que o gato nunca poderia voar.
Às vezes, a pomba desaparecia. Ficava longo tempo no céu, mas quando olhava para baixo, via o gato de encontro aos passeios, magro de fome do amor que lhe tinha, doido das asas com que não nascera. Condoída, a pomba descia à terra. E o gato arrancava-lhe mais uma pena da asa. Foi assim durante muito tempo. Até a pomba ficar moribunda e descer ao chão. O gato olhando o seu amor partido, deitou-se ao lado da pomba e, esperou com ela, pelo fim. E descobriu, já tarde, que o medo também pode matar.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Fazer doer
Custa-me tanto gente a doer-se à minha custa. As lágrimas que me choram, choro também. Em cada não que digo e disse, a minha alma também se partiu, como se fosse eu a receber a dor que o acompanha. O mesmo com os meus amigos. Enfraquecem-me os corações partidos. Nem preciso que digam . Basta saber. "Ele foi-se embora", "Ela tem outro amor", alguém já não quer, mentiu, fugiu, virou tudo ao contrário. São histórias de sempre e continuam a bater-me como a primeira vez que percebi que gostar não chega, que amar é, por vezes, pouco. Mas como? Devo ter feito tantas vezes a pergunta e são ainda estes estilhaços de desilusão e compreensão que afinal isto aqui que penso aquilo que sinto o que pensava que era não é bem assim, que me tolhem, me encurvam. Eu ouço os desabafos e encolho. A multidão dá palmadinhas nas costas: o segue em frente. Seguimos todos. Mas eu, eu fico sempre um bocado mais a olhar os destroços de tudo sem perceber. As mãos que se desapertam, os nós que se desfazem, os dois que agora são outros dois. E depois niguémn acredita. Sou eu lá exemplo... Ninguém acredita que me custe este tanto. Mas custa.
Por isso, quando sou eu a dizer não, fico sempre à espera que o mundo me desabe. Quando sou eu que parto, não sei lidar comigo.
Por isso, quando sou eu a dizer não, fico sempre à espera que o mundo me desabe. Quando sou eu que parto, não sei lidar comigo.
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