sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009
Meu amor,
tu abrias os presentes (as prendinhas, como dizes) e querias que fossem todos carros. Dentro de mim o horror tamanho por não ser capaz de estar feliz por ti. Queria fotografias, quase que gritava para a tia te tirar fotografias. Se eu levantasse os olhos do papel de embrulho que te ajudei a rasgar, só veria as cinzas de todos aqueles que já não poderiam estar aqui: porque foram embora ou porque escolheram caminhos que não os nossos. Meu amor. Tu até acreditaste que foi o Pai Natal que te deixou lá fora a bicicleta. Mas foi a tia. Nenhuma de nós conseguiu, apesar do esforço, fazer com que este Natal parecesse Natal. Tu deves ter reparado.
Acabou por acontecer hoje de manhã. O Natal foi quando a avó encheu a banheira para o teu banho e eu disse-lhe: “Não o tires daí” e fui para dentro de água ter contigo. Por momentos, quando te deitaste em cima do meu corpo, a tua pele pertinho do meu peito e os teus olhos molhados a tocarem na minha bochecha, pareceu-me o dia em que nasceste. Tanta esperança. Meu amor. Vamos lá tentar que para o ano seja melhor! Ajudas a mãe???
terça-feira, 19 de outubro de 2010
(do Verdade ou Veneno) 10 de Dezembro
quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
Três
"Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonanca
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança"
(S.G.)
Dizer-te que não imagino os meus dias sem que existas é pouco, e se pensares bem nesta frase, é tudo. Quero explicar-te bem, mas precisava das tuas mãos pequenas, dos teus dedos de magia, precisava dos teus olhos.
Filho. Nasceste numa manhã tão clara. Filho, doeste-me. Fizeste-me. Vais-me fazendo. Não sei se é o teu riso, se é a tua carne que não é minha (não, não é minha, é tua). És um espanto. Tudo em ti é um espanto. Era uma manhã tão grande, quando nasceste. Eu era uma miúda. Quando nasceste. E tu tão pequeno a seres gigante na minha pele. Preciso de ti para te explicar que nasceste hoje mas que este hoje foi há três anos. Parece tão pouco. E é tanto. Por te ter aqui o meu coração bate em vida e com vida. Por estares aqui pude ver-me morrer um amor sem me desejar morta. Um dia chamaste-me mãe. Vê lá tu. Eu, a tua mãe.
Parabéns filho. Obrigada por me teres escolhido.
Parabéns meu amor.
Três
"Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonanca
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança"
(S.G.)
Dizer-te que não imagino os meus dias sem que existas é pouco, e se pensares bem nesta frase, é tudo. Quero explicar-te bem, mas precisava das tuas mãos pequenas, dos teus dedos de magia, precisava dos teus olhos.
Filho. Nasceste numa manhã tão clara. Filho, doeste-me. Fizeste-me. Vais-me fazendo. Não sei se é o teu riso, se é a tua carne que não é minha (não, não é minha, é tua). És um espanto. Tudo em ti é um espanto. Era uma manhã tão grande, quando nasceste. Eu era uma miúda. Quando nasceste. E tu tão pequeno a seres gigante na minha pele. Preciso de ti para te explicar que nasceste hoje mas que este hoje foi há três anos. Parece tão pouco. E é tanto. Por te ter aqui o meu coração bate em vida e com vida. Por estares aqui pude ver-me morrer um amor sem me desejar morta. Um dia chamaste-me mãe. Vê lá tu. Eu, a tua mãe.
Parabéns filho. Obrigada por me teres escolhido.
Parabéns meu amor.
(do Verdade ou Veneno) Assim?
domingo, 6 de Dezembro de 2009
Pára tudo. Esperem lá. A ver se percebo. Mãe, quantas vezes me contaste tu a história de quando o pai sofreu aquele acidente e pregaram-lhe o tal número da morgue e afinal eis que o pai não morrera e tudo ria à volta e por isso lhe chamavam "morto-vivo". Esperem lá. Pára tudo. A ver se entendo. Quantas vezes não me mostraste tu, pai, os estilhaços que tinhas na cabeça, os que não te tiraram, trinta e cinco anos no teu escalpe, esses montinhos de vidro debaixo do teu cabelo castanho e depois grisalho. As tias contavam a história. Todos ríamos - tu rias ainda mais. Dizias-te invencível. Esperem lá. A ver se acredito. Quantos acidentes de automóvel tiveste tu, ainda o ano passado voou-te um camião por cima, esmagou o carro e tu preocupado com os óculos afinal não os partiste e arreliado com o telémovel e os diabetes que dispararam, "Estou bem, filhota", a rir, a contar outra vez a história do "morto vivo". E a plataforma no rio, dois, três homens à água, desapareceram, menos tu, o único que se agarrou ao ferro.
Pára tudo. A ver se não estou enganada. Então e daquela vez em que foste ao armazém, foi há uns oito, nove meses, pai? Caiste desamparado, sangue na cabeça, desmaiaste, deram por ti esticado no chão, do outro lado da linha rias-te. Então e o tal bruxo dessa África onde nasceste e a lenda da cruz que trazias desenhada na pele, de nascença, como se tivesses vindo ao mundo já protegido, o tal bruxo que dizia que ias morrer muito, muito velho. Pára tudo já. Porque não tarda ponho-me a gritar. E da última vez que estivemos juntos, baixaste os olhos e falaste no dia em que a tua mãe, para cima de noventa, te ia morrer nos braços. Porque até tu sabias que ias morrer daqui a tanto tempo que na altura estaríamos já todos à espera.
Pára tudo. A VER SE PERCEBO.
Morres-me assim?
Pára tudo. Esperem lá. A ver se percebo. Mãe, quantas vezes me contaste tu a história de quando o pai sofreu aquele acidente e pregaram-lhe o tal número da morgue e afinal eis que o pai não morrera e tudo ria à volta e por isso lhe chamavam "morto-vivo". Esperem lá. Pára tudo. A ver se entendo. Quantas vezes não me mostraste tu, pai, os estilhaços que tinhas na cabeça, os que não te tiraram, trinta e cinco anos no teu escalpe, esses montinhos de vidro debaixo do teu cabelo castanho e depois grisalho. As tias contavam a história. Todos ríamos - tu rias ainda mais. Dizias-te invencível. Esperem lá. A ver se acredito. Quantos acidentes de automóvel tiveste tu, ainda o ano passado voou-te um camião por cima, esmagou o carro e tu preocupado com os óculos afinal não os partiste e arreliado com o telémovel e os diabetes que dispararam, "Estou bem, filhota", a rir, a contar outra vez a história do "morto vivo". E a plataforma no rio, dois, três homens à água, desapareceram, menos tu, o único que se agarrou ao ferro.
Pára tudo. A ver se não estou enganada. Então e daquela vez em que foste ao armazém, foi há uns oito, nove meses, pai? Caiste desamparado, sangue na cabeça, desmaiaste, deram por ti esticado no chão, do outro lado da linha rias-te. Então e o tal bruxo dessa África onde nasceste e a lenda da cruz que trazias desenhada na pele, de nascença, como se tivesses vindo ao mundo já protegido, o tal bruxo que dizia que ias morrer muito, muito velho. Pára tudo já. Porque não tarda ponho-me a gritar. E da última vez que estivemos juntos, baixaste os olhos e falaste no dia em que a tua mãe, para cima de noventa, te ia morrer nos braços. Porque até tu sabias que ias morrer daqui a tanto tempo que na altura estaríamos já todos à espera.
Pára tudo. A VER SE PERCEBO.
Morres-me assim?
(do Verdade ou Veneno) Pai
Vou-te tatuar no pulso onde as veias se cortam mais fácil vou tatuar-te na carne que me deste vou-te prender na minha pele vou dar-te lugar em mim tu dirias que não e chamar-me-ias "trapalhona" ou abririas os olhos de espanto, esses olhos de ex-menino de colégio inglês, demasiado educado entre os homens que dizem asneiras. Porque tu não dizes asneiras.
Vou pedir que me encham os poros de tinta com o nome maior que tu tens que tu és que me encham este lugar vazio e pode ser que não me custe tanto
ter deixado
de
dizer
Pai.
Vou pedir que me encham os poros de tinta com o nome maior que tu tens que tu és que me encham este lugar vazio e pode ser que não me custe tanto
ter deixado
de
dizer
Pai.
Amor-dor
É aquele amor a doer devagarinho, que ainda vive, mas a sangue morno, como uma estaca enfiada na carne, não nos podemos mexer muito. Não sei se conhecem este amor partido nos cantos.
(do Verdade ou Veneno) PARTIDOS
quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Estamos partidos. Meu amor, meu amigo, estamos todos partidos. Há gente de olhos desfeitos e de coração torto. Há gente a desistir. Há gente triste triste. Estamos todos partidos. Já ninguém acredita em nada. Uns fingem que acreditam, mas eu vejo-os. Estão cansados. Têm sorrisos cínicos. A vida é-lhes uma imensa ironia. Temos passados doidos doridos doentes. Não conseguimos esquecer. Já não temos pachorra para aguentar. Os poucos que resistem de nada valem. Estão rodeados de gente partida.
Estamos partidos. Meu amor, meu amigo, estamos todos partidos. Há gente de olhos desfeitos e de coração torto. Há gente a desistir. Há gente triste triste. Estamos todos partidos. Já ninguém acredita em nada. Uns fingem que acreditam, mas eu vejo-os. Estão cansados. Têm sorrisos cínicos. A vida é-lhes uma imensa ironia. Temos passados doidos doridos doentes. Não conseguimos esquecer. Já não temos pachorra para aguentar. Os poucos que resistem de nada valem. Estão rodeados de gente partida.
(do Verdade ou Veneno) Uma mesa para jantar
sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
A toalha se calhar até tem pregas que eu aliso com a mão enquanto tu olhas através do vidro para a noite imensa. À espera e já não estás à espera. Os nossos olhos irão cruzar-se e baixar-se com o peso de tudo. Aquilo que nós sabemos. E uma tristeza levezinha há-de cair sobre os nossos ombros porque sabemos que não deveríamos estar aqui neste lugar. As pessoas que passarem não saberão que nessa mesa para jantar não estão meses ou dias contados da maneira delas. As pessoas não sabem disto. Nem nós. Não chegues tarde para jantar.
A toalha se calhar até tem pregas que eu aliso com a mão enquanto tu olhas através do vidro para a noite imensa. À espera e já não estás à espera. Os nossos olhos irão cruzar-se e baixar-se com o peso de tudo. Aquilo que nós sabemos. E uma tristeza levezinha há-de cair sobre os nossos ombros porque sabemos que não deveríamos estar aqui neste lugar. As pessoas que passarem não saberão que nessa mesa para jantar não estão meses ou dias contados da maneira delas. As pessoas não sabem disto. Nem nós. Não chegues tarde para jantar.
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