terça-feira, 19 de outubro de 2010

(do Verdade ou Veneno) Assim?

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Pára tudo. Esperem lá. A ver se percebo. Mãe, quantas vezes me contaste tu a história de quando o pai sofreu aquele acidente e pregaram-lhe o tal número da morgue e afinal eis que o pai não morrera e tudo ria à volta e por isso lhe chamavam "morto-vivo". Esperem lá. Pára tudo. A ver se entendo. Quantas vezes não me mostraste tu, pai, os estilhaços que tinhas na cabeça, os que não te tiraram, trinta e cinco anos no teu escalpe, esses montinhos de vidro debaixo do teu cabelo castanho e depois grisalho. As tias contavam a história. Todos ríamos - tu rias ainda mais. Dizias-te invencível. Esperem lá. A ver se acredito. Quantos acidentes de automóvel tiveste tu, ainda o ano passado voou-te um camião por cima, esmagou o carro e tu preocupado com os óculos afinal não os partiste e arreliado com o telémovel e os diabetes que dispararam, "Estou bem, filhota", a rir, a contar outra vez a história do "morto vivo". E a plataforma no rio, dois, três homens à água, desapareceram, menos tu, o único que se agarrou ao ferro.
Pára tudo. A ver se não estou enganada. Então e daquela vez em que foste ao armazém, foi há uns oito, nove meses, pai? Caiste desamparado, sangue na cabeça, desmaiaste, deram por ti esticado no chão, do outro lado da linha rias-te. Então e o tal bruxo dessa África onde nasceste e a lenda da cruz que trazias desenhada na pele, de nascença, como se tivesses vindo ao mundo já protegido, o tal bruxo que dizia que ias morrer muito, muito velho. Pára tudo já. Porque não tarda ponho-me a gritar. E da última vez que estivemos juntos, baixaste os olhos e falaste no dia em que a tua mãe, para cima de noventa, te ia morrer nos braços. Porque até tu sabias que ias morrer daqui a tanto tempo que na altura estaríamos já todos à espera.
Pára tudo. A VER SE PERCEBO.
Morres-me assim?

(do Verdade ou Veneno) Pai

Vou-te tatuar no pulso onde as veias se cortam mais fácil vou tatuar-te na carne que me deste vou-te prender na minha pele vou dar-te lugar em mim tu dirias que não e chamar-me-ias "trapalhona" ou abririas os olhos de espanto, esses olhos de ex-menino de colégio inglês, demasiado educado entre os homens que dizem asneiras. Porque tu não dizes asneiras.
Vou pedir que me encham os poros de tinta com o nome maior que tu tens que tu és que me encham este lugar vazio e pode ser que não me custe tanto
ter deixado
de
dizer
Pai.

Amor-dor

É aquele amor a doer devagarinho, que ainda vive, mas a sangue morno, como uma estaca enfiada na carne, não nos podemos mexer muito. Não sei se conhecem este amor partido nos cantos.

(do Verdade ou Veneno) PARTIDOS

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Estamos partidos. Meu amor, meu amigo, estamos todos partidos. Há gente de olhos desfeitos e de coração torto. Há gente a desistir. Há gente triste triste. Estamos todos partidos. Já ninguém acredita em nada. Uns fingem que acreditam, mas eu vejo-os. Estão cansados. Têm sorrisos cínicos. A vida é-lhes uma imensa ironia. Temos passados doidos doridos doentes. Não conseguimos esquecer. Já não temos pachorra para aguentar. Os poucos que resistem de nada valem. Estão rodeados de gente partida.

(do Verdade ou Veneno) Uma mesa para jantar

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

A toalha se calhar até tem pregas que eu aliso com a mão enquanto tu olhas através do vidro para a noite imensa. À espera e já não estás à espera. Os nossos olhos irão cruzar-se e baixar-se com o peso de tudo. Aquilo que nós sabemos. E uma tristeza levezinha há-de cair sobre os nossos ombros porque sabemos que não deveríamos estar aqui neste lugar. As pessoas que passarem não saberão que nessa mesa para jantar não estão meses ou dias contados da maneira delas. As pessoas não sabem disto. Nem nós. Não chegues tarde para jantar.

(do Verdade ou Veneno) Invisíveis

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Há coisas que não têm nome. Nunca o tiveram. São esmagadas por pedras de edifícios, por caminhos, por objectivos, por sonhos individuais. Coisas como coração. Coisas como amor. Coisas como passado, presente, futuro. Há mãos que se tocam e que não constroem, porque nunca se tocaram, porque viveram separadas desde o primeiro minuto em que alguém disse: “vem” e outro alguém respondeu: “um dia”!

(do Verdade ou Veneno) Pedido

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Filho estou cansada come lá o iogurte que estou sempre atrasada desculpa estar sempre atrasada. Ultimamente gostava que fizesses tudo aquilo que te peço come o iogurte alimenta-te por favor que eu continuarei a dar-te beijos e a olhar o espanto na cara dos outros por sermos os dois tão diferentes e nos pertencermos.
Tu és a minha família filho eu sei que entretanto não percebes que sinto dores ou tenho preocupações nem te vou dizer se as tiver eu para ti sou indestrutível mais veloz do que o vento e mais forte que essas montanhas onde fazes dos teus carrinhos jipes. Por isso é que não sabes que às vezes te levo ao colo e carrego a um mesmo tempo os sacos e os meus passos fraquejam. Eu não sou muito grande filho sei que te pareço grande mas nem por isso o sou daqui a pouco vais perceber isto que te digo e se calhar até vais brincar com isso.
Come o iogurte filho não quero gritar contigo só porque estou cansada não é nervosa é mesmo cansada. Vê os desenhos animados. Há tanto tempo que não vejo qualquer coisa na televisão pedes-me que te leia os livros em voz alta e depois não gostas porque nos livros da mãe nao há bonecos nem coelhos ou joaninhas. Não fujas para a estrada filho só por hoje dá-me um desconto que as mães, às vezes, também carregam corações partidos.