terça-feira, 19 de outubro de 2010
Amor-dor
É aquele amor a doer devagarinho, que ainda vive, mas a sangue morno, como uma estaca enfiada na carne, não nos podemos mexer muito. Não sei se conhecem este amor partido nos cantos.
(do Verdade ou Veneno) PARTIDOS
quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Estamos partidos. Meu amor, meu amigo, estamos todos partidos. Há gente de olhos desfeitos e de coração torto. Há gente a desistir. Há gente triste triste. Estamos todos partidos. Já ninguém acredita em nada. Uns fingem que acreditam, mas eu vejo-os. Estão cansados. Têm sorrisos cínicos. A vida é-lhes uma imensa ironia. Temos passados doidos doridos doentes. Não conseguimos esquecer. Já não temos pachorra para aguentar. Os poucos que resistem de nada valem. Estão rodeados de gente partida.
Estamos partidos. Meu amor, meu amigo, estamos todos partidos. Há gente de olhos desfeitos e de coração torto. Há gente a desistir. Há gente triste triste. Estamos todos partidos. Já ninguém acredita em nada. Uns fingem que acreditam, mas eu vejo-os. Estão cansados. Têm sorrisos cínicos. A vida é-lhes uma imensa ironia. Temos passados doidos doridos doentes. Não conseguimos esquecer. Já não temos pachorra para aguentar. Os poucos que resistem de nada valem. Estão rodeados de gente partida.
(do Verdade ou Veneno) Uma mesa para jantar
sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
A toalha se calhar até tem pregas que eu aliso com a mão enquanto tu olhas através do vidro para a noite imensa. À espera e já não estás à espera. Os nossos olhos irão cruzar-se e baixar-se com o peso de tudo. Aquilo que nós sabemos. E uma tristeza levezinha há-de cair sobre os nossos ombros porque sabemos que não deveríamos estar aqui neste lugar. As pessoas que passarem não saberão que nessa mesa para jantar não estão meses ou dias contados da maneira delas. As pessoas não sabem disto. Nem nós. Não chegues tarde para jantar.
A toalha se calhar até tem pregas que eu aliso com a mão enquanto tu olhas através do vidro para a noite imensa. À espera e já não estás à espera. Os nossos olhos irão cruzar-se e baixar-se com o peso de tudo. Aquilo que nós sabemos. E uma tristeza levezinha há-de cair sobre os nossos ombros porque sabemos que não deveríamos estar aqui neste lugar. As pessoas que passarem não saberão que nessa mesa para jantar não estão meses ou dias contados da maneira delas. As pessoas não sabem disto. Nem nós. Não chegues tarde para jantar.
(do Verdade ou Veneno) Invisíveis
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Há coisas que não têm nome. Nunca o tiveram. São esmagadas por pedras de edifícios, por caminhos, por objectivos, por sonhos individuais. Coisas como coração. Coisas como amor. Coisas como passado, presente, futuro. Há mãos que se tocam e que não constroem, porque nunca se tocaram, porque viveram separadas desde o primeiro minuto em que alguém disse: “vem” e outro alguém respondeu: “um dia”!
Há coisas que não têm nome. Nunca o tiveram. São esmagadas por pedras de edifícios, por caminhos, por objectivos, por sonhos individuais. Coisas como coração. Coisas como amor. Coisas como passado, presente, futuro. Há mãos que se tocam e que não constroem, porque nunca se tocaram, porque viveram separadas desde o primeiro minuto em que alguém disse: “vem” e outro alguém respondeu: “um dia”!
(do Verdade ou Veneno) Pedido
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Filho estou cansada come lá o iogurte que estou sempre atrasada desculpa estar sempre atrasada. Ultimamente gostava que fizesses tudo aquilo que te peço come o iogurte alimenta-te por favor que eu continuarei a dar-te beijos e a olhar o espanto na cara dos outros por sermos os dois tão diferentes e nos pertencermos.
Tu és a minha família filho eu sei que entretanto não percebes que sinto dores ou tenho preocupações nem te vou dizer se as tiver eu para ti sou indestrutível mais veloz do que o vento e mais forte que essas montanhas onde fazes dos teus carrinhos jipes. Por isso é que não sabes que às vezes te levo ao colo e carrego a um mesmo tempo os sacos e os meus passos fraquejam. Eu não sou muito grande filho sei que te pareço grande mas nem por isso o sou daqui a pouco vais perceber isto que te digo e se calhar até vais brincar com isso.
Come o iogurte filho não quero gritar contigo só porque estou cansada não é nervosa é mesmo cansada. Vê os desenhos animados. Há tanto tempo que não vejo qualquer coisa na televisão pedes-me que te leia os livros em voz alta e depois não gostas porque nos livros da mãe nao há bonecos nem coelhos ou joaninhas. Não fujas para a estrada filho só por hoje dá-me um desconto que as mães, às vezes, também carregam corações partidos.
Filho estou cansada come lá o iogurte que estou sempre atrasada desculpa estar sempre atrasada. Ultimamente gostava que fizesses tudo aquilo que te peço come o iogurte alimenta-te por favor que eu continuarei a dar-te beijos e a olhar o espanto na cara dos outros por sermos os dois tão diferentes e nos pertencermos.
Tu és a minha família filho eu sei que entretanto não percebes que sinto dores ou tenho preocupações nem te vou dizer se as tiver eu para ti sou indestrutível mais veloz do que o vento e mais forte que essas montanhas onde fazes dos teus carrinhos jipes. Por isso é que não sabes que às vezes te levo ao colo e carrego a um mesmo tempo os sacos e os meus passos fraquejam. Eu não sou muito grande filho sei que te pareço grande mas nem por isso o sou daqui a pouco vais perceber isto que te digo e se calhar até vais brincar com isso.
Come o iogurte filho não quero gritar contigo só porque estou cansada não é nervosa é mesmo cansada. Vê os desenhos animados. Há tanto tempo que não vejo qualquer coisa na televisão pedes-me que te leia os livros em voz alta e depois não gostas porque nos livros da mãe nao há bonecos nem coelhos ou joaninhas. Não fujas para a estrada filho só por hoje dá-me um desconto que as mães, às vezes, também carregam corações partidos.
Família
O abraço da minha irmã. O riso da outra. Os olhos grandes de outra ainda. O sorriso da minha avó. As mãos da minha mãe. O cheiro do meu pai. As minhas amigas e eu junto a uma sepultura. O calor do meu filho. Alguém que me amou e que eu amei e que continua.
Esta é a minha família.
Esta é a minha família.
(do Verdade ou Veneno) Passado
Porque quando escreveste nas minhas costas partida eu era uma semente. Devia ter prestado mais atenção, ter feito tudo, talvez, mais devagar. Era uma menina e não sabia que existia uma frase nas minhas costas. A frase é uma linha torta. Pensei que se não a visse ela não me poderia guiar. Do outro lado da vida alguém sabia que eu tinha uma frase escrita nas minhas costas. Menos eu.
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