terça-feira, 19 de outubro de 2010

(do Verdade ou Veneno) Pedido

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Filho estou cansada come lá o iogurte que estou sempre atrasada desculpa estar sempre atrasada. Ultimamente gostava que fizesses tudo aquilo que te peço come o iogurte alimenta-te por favor que eu continuarei a dar-te beijos e a olhar o espanto na cara dos outros por sermos os dois tão diferentes e nos pertencermos.
Tu és a minha família filho eu sei que entretanto não percebes que sinto dores ou tenho preocupações nem te vou dizer se as tiver eu para ti sou indestrutível mais veloz do que o vento e mais forte que essas montanhas onde fazes dos teus carrinhos jipes. Por isso é que não sabes que às vezes te levo ao colo e carrego a um mesmo tempo os sacos e os meus passos fraquejam. Eu não sou muito grande filho sei que te pareço grande mas nem por isso o sou daqui a pouco vais perceber isto que te digo e se calhar até vais brincar com isso.
Come o iogurte filho não quero gritar contigo só porque estou cansada não é nervosa é mesmo cansada. Vê os desenhos animados. Há tanto tempo que não vejo qualquer coisa na televisão pedes-me que te leia os livros em voz alta e depois não gostas porque nos livros da mãe nao há bonecos nem coelhos ou joaninhas. Não fujas para a estrada filho só por hoje dá-me um desconto que as mães, às vezes, também carregam corações partidos.

Família

O abraço da minha irmã. O riso da outra. Os olhos grandes de outra ainda. O sorriso da minha avó. As mãos da minha mãe. O cheiro do meu pai. As minhas amigas e eu junto a uma sepultura. O calor do meu filho. Alguém que me amou e que eu amei e que continua.


Esta é a minha família.

(do Verdade ou Veneno) Passado

Porque quando escreveste nas minhas costas partida eu era uma semente. Devia ter prestado mais atenção, ter feito tudo, talvez, mais devagar. Era uma menina e não sabia que existia uma frase nas minhas costas. A frase é uma linha torta. Pensei que se não a visse ela não me poderia guiar. Do outro lado da vida alguém sabia que eu tinha uma frase escrita nas minhas costas. Menos eu.

(do Verdade ou Veneno) Meu amigo

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Quando perdi o meu pai (e note-se que eu não o perdi, deixei foi de o ver, ou antes, vi-o calado e mudo, sem que sorrisse e, para mim, a morte dele é não o olhar sorrindo-me), dei-me conta então daquilo que ele foi toda a vida para mim.

O meu pai foi o meu maior amigo. Não, não estão a perceber. Eu sou mulher, ele era um homem. Éramos os maiores amigos. Numa das alturas da sua vida o meu pai de olhos castanhos e índios, cabelos ondulados e grisalhos (já só me lembro do cabelo grisalho), o meu pai de riso aberto e maneira calma, fazia viagens para a Suíça. De carro. De carrinha. Vinte e duas horas quase non stop, estrada imensa à frente, uma lancheira, duas ou três paragens para ir à casa-de-banho. Meia-hora de sono numa qualquer estação de serviço. Não havia o euro. E eram os francos e as pesetas e tudo divididinho numa carteira preta pesada. O meu pai. Tão esperto e português. Foi uma vez, não se enganou, foi dezenas de vezes, nunca se acidentou.

Perto do Natal, houve um dia, em que decidi ir com ele. No meio da neve e do frio e da chuva ouvíamos rádio e eu ainda me lembro das canções e ele cantava comigo e perguntava-me tantas e tantas coisas e falava do atrelado que levava preso à carrinha e mostrava-me placas e dizia dorme e dizia come e dizia estás bem o meu pai que me amava tanto tanto e que era o meu maior amigo.
Éramos companheiros.
Dormíamos a sesta juntos, tínhamos uma brincadeira que eu inventei e que ele nunca mas é que nunca se esqueceu: se fosse quinta então não estávamos a dormir a sesta mas a quinta e por aí fora e ele guardava o melhor lugar da cama para mim e a melhor parte do bife e foi (e é) o único adulto que eu conheci que JAMAIS se chateou ou chatearia se eu pedisse um sumo no café e depois não bebesse nem uma gotinha. O meu pai podia ter 100 escudos na carteira e ter gasto os 100 escudos na bebida que eu não bebera que JAMAIS ficaria zangado com isso.

Na faculdade passava de madrugada por Coimbra e dizia, à sexta-feira, "Vens com o pai?", e eu dizia que não, porque queria sair à noite, beber copos, namorar. Ele ia embora e deixava-me dinheiro para essa noite e ia para casa e contava uma treta à minha avó. Mentia por mim. Safava-me.

E ria-se de todas as coisas que eu dizia e tirar-me-ia da prisão ainda que eu tivesse morto alguém. Eu conhecia os segredos dele e era a única pessoa que sabia exactamente quanto dinheiro ele tinha e se a história que estava a contar era realmente assim.

Éramos os maiores amigos.

Este era o meu pai.

(do Verdade ou Veneno) E o medo

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
E amanhã quando a vida nos enrolar e o cansaço e o tempo e o espaço e não vai estar este calor entretanto a chuva vamos esquecer esquecer que um dia chorámos e gritámos vamos fingir fingir que o mundo não se compadece do nosso desejo mas devia devia dar-nos tempo e espaço e lugares onde nos fosse permitido falar de tudo sem dizer uma única palavra porque não precisamos precisamos apenas de respirar em conjunto e sentir e sentir que não é possível explicar o que sentimos.

(do Verdade ou Veneno) Isto é feio, Pai

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Tenho uma fotografia tua em cima do frigorífico. Estamos lá os dois. Está em cima do frigorífico por cobardia. Porque não estares me dói muito. A falta de coragem levou-me a colocar a tua foto num lugar alto. Não estou sempre a cruzar-me com os teus olhos, agora fechados, e evito entrar em pânico.
Fui sempre assim. Cobarde na perda.

Fazes-me falta

Fazes-me falta. Ainda que me esgotes as mãos, que me partas a loiça, que fujas e grites e tropeces e faças asneiras mil e estejas constantemente a dizer que não e a engolir as palavras que te recusas a dizer bem, porque não queres crescer, porque já topaste que isto de crescer são balelas e que a partir dai vai ser sempre a perder. Fazes-me falta no respirar tranquilo que é o teu sono, na certeza absolutamente perfeita que o melhor lugar do mundo é ao teu lado. Fazes-me falta miúdo. Fazes-me falta.