terça-feira, 19 de outubro de 2010

(do Verdade ou Veneno) Isto é feio, Pai

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Tenho uma fotografia tua em cima do frigorífico. Estamos lá os dois. Está em cima do frigorífico por cobardia. Porque não estares me dói muito. A falta de coragem levou-me a colocar a tua foto num lugar alto. Não estou sempre a cruzar-me com os teus olhos, agora fechados, e evito entrar em pânico.
Fui sempre assim. Cobarde na perda.

Fazes-me falta

Fazes-me falta. Ainda que me esgotes as mãos, que me partas a loiça, que fujas e grites e tropeces e faças asneiras mil e estejas constantemente a dizer que não e a engolir as palavras que te recusas a dizer bem, porque não queres crescer, porque já topaste que isto de crescer são balelas e que a partir dai vai ser sempre a perder. Fazes-me falta no respirar tranquilo que é o teu sono, na certeza absolutamente perfeita que o melhor lugar do mundo é ao teu lado. Fazes-me falta miúdo. Fazes-me falta.

(do Verdade ou Veneno) Todos os dias

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Hoje sonhei contigo. Estavas ao meu lado, passei-te o meu menino para o colo, enquanto entrávamos para o interior de um prédio em construção... ou em ruínas, não sei bem. Estavas lá tu e, por isso, estava segura. Quando acordei, as saudades de ti explodiram no meu peito e fizeram do caminho para o emprego uma estrada de desalento. Sinto tanto a tua falta que às vezes parece-me que respiro mais devagarinho, a tua ausência é como uma corda que me tolhe a respiração, como se as forças me fugissem ante a impossibilidade de te ver, de te esperar, de te ouvir. A falta que me fazes pai. Esta saudade infinita, este pânico de me esquecer dos teus braços morenos, do teu cheiro, do sorriso travesso, da forma como o teu cabelo ondula e se espeta no remoinho. Nunca te vou assistir velho. Ajudar-te a sentar numa cadeira, aconchegar-te os cobertores à noite, colocar-te uma joaninha de chocolate à mesa de cabeceira como tantas e tantas vezes me fizeste. Respiro agora mais devagar. Parte da minha vida foi contigo. A criança que eu era está aí- não sei onde - de mão dada na tua. Por que é não ficaste só mais um bocadinho?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Mal

Isto passa tudo muito depressa. Gostava que durasse mais, que fosse mais, que entretanto não cessasse. Num instante já vivemos tanto, já vimos muito, sabemos das coisas. Depois, procuramos incessantemente aquele lugar, a reviravolta, queremos saber como é embora saibamos sempre como é mantermo-nos. E às tantas retrocedemos. A grande chatice é quando ficamos pior. Piores. Experimentámos fazer bem. Fizemos. Depois fizémos mal e não aconteceu nada de especial. Damos por nós e somos qualquer coisa em determinada situação que costumávamos dizer "não pode ser". Depois de termos visto.
Isto passa tudo muito depressa. Tantas vezes, aprendemos mal.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Outono

No Outono a minha avó cozia castanhas e o meu pai era vivo. Quando regressava a casa, cheirava a rua, a tabaco e a amor. Eu podia ligar-lhe em dias de chuva. Eu podia apanhar um comboio só para o ver. Tenho saudades dele na estação à minha espera, no fundo de uma rua a dizer-me adeus. As roupas que tem nas fotografias irão ficar fora de moda e será então que eu vou saber que passaram muitos anos. Dói mais depois de muito tempo. O tempo não apaga as coisas que nunca mais voltam.

domingo, 10 de outubro de 2010

Pouco

A mesa de vidro segurava as minhas mãos e o frio vinha de tão dentro que deves tê-lo sentido. Fiquei um longo tempo sem escrever. No interior do que eu sou, o Inverno. As palavras seriam poucas, estas que eu amo, as puras, as que me salvam e resgatam, perdia-as.
Não vês? Soube que estava por pouco, quando deixei de conseguir escrever.
Não vês?
Do outro lado da mesa tu tentavas fazer tudo igual. Como se bastasse. Estares. Dizeres coisas. Permaneceres. (Não vês? Eu perdi as palavras. As minhas palavras).
Lá fora o Outono chegava devagar e eu já não me importava. O Verão tinha sido curto e duro e eu também já não me lembrava. Tudo passou muito depressa e muito devagar. Antes de perder as palavras, tinha-me perdido a mim.
Falaste como se bastasses. Disseste como se fosse suficiente.
Eu podia ter calado e agarrado o pouco que trazias contigo. Fazer disso um banquete. Do pouco, um manjar, uma vida, uma explicação. Mas eu tinha perdido as palavras. Se não as tivesse perdido, não me teria dado conta.
A folha em branco era uma naúsea. Eu queria escrever sangue e só poderia escrever sangue, eu queria dizer medo e só poderia dizer medo. Era tudo cru em mim.
A mesa de vidro que nos separava não era uma mesa de vidro. Sendo uma mesa era a minha folha em branco e tu a pensares que chegava seres.
Dei-te a escolher. Pedi-te. Não acreditei. Estaria a mentir se dissesse que acreditei. Mas eu ainda não sabia muito. Não conseguia escrever, logo não sabia o que sentia. Não queria sentir. E tu, olhando-me, como se fosse isso. Estares lá, ser tudo.
Não chega.
Não vês?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Entretanto

O meu dedo carrega no botão que chama o elevador e eu não tenho medo. Ando à minha procura e este é apenas mais um lugar. Quando me sento, do outro lado da janela está uma praça inteira e, nela, eu estou partida. Os meus braços, as minhas mãos pernas pés os meus olhos o meu coração está em toda a parte dessa praça e, enquanto falo com ele, que não conheço, a praça entra-me pelo peito e quase me impede de continuar. Falo muito. Até que lhe digo.
- "Se calhar, sou louca".
Ele quase que ri. Mas não ri. Tenta explicar-me que posso caminhar sem que o meu corpo seja gelatina. Eu componho frases com nexo e conto-lhe coisas feias e outras menos feias mas o que eu lhe quero dizer aquilo que lhe quero pedir não tem voz
- Eu queria esquecer, se faz favor.
Mas não digo.
Há outras coisas que gostaria de pedir. Enquanto lá estou, respondo a tudo, enquanto a praça me arranca bocados da alma, me grita infortúnio, me chama de má sorte.
Há coisas a compor. Ele diz-me coisas que eu sei. Mas estou partida há tanto tempo.
Antes de me ir embora, ele faz-me a pergunta mais difícil. Estou de pé, mala na mão e ele atira-me a pergunta e esta é toda a praça a entrar-me pelos olhos dentro. A pergunta é a minha dor.
Respondo
-Não sei.

Tenho de lá voltar. Mas continuo sem saber o que responder.